Dez anos após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o balanço das promessas feitas para o evento é contraditório. Se por um lado a cidade ganhou obras estruturais como a Linha 4 do metrô, o VLT e corredores de transporte que transformaram a mobilidade urbana, por outro, a expansão do transporte sobre trilhos ficou pela metade e a segurança pública, que prometia pacificação, perdeu força após o evento.
Linha 4: uma conquista incompleta
A Linha 4 do metrô, que liga Ipanema à Barra da Tijuca, foi a principal obra de mobilidade para os Jogos. Inaugurada em 2016, após anos de atraso e com investimento bilionário, ela foi decisiva para conectar a zona oeste ao centro da cidade. No entanto, a promessa de levar o metrô até a Gávea, estação que ficou pronta mas nunca entrou em operação, segue sem prazo. A estação, construída a 50 metros de profundidade, é um símbolo do que ficou pela metade: a obra foi concluída, mas a operação depende de ajustes e de integração com outras linhas, que ainda não saíram do papel.
O crescimento da Barra da Tijuca, impulsionado pela valorização imobiliária e pela presença de grandes empreendimentos, pressionou a infraestrutura local. O trânsito, que já era caótico, piorou com o aumento populacional e a falta de alternativas de transporte. A Linha 4, que deveria ser o carro-chefe, opera com capacidade reduzida e não atende a demanda da região.
Segurança: a pacificação que se desfez
A política de pacificação, que começou anos antes dos Jogos com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), foi um dos pilares da candidatura do Rio. A ideia era estabelecer o controle estatal em favelas e comunidades, reduzindo a violência. Durante os Jogos, a segurança foi elogiada, com a presença de forças federais e estaduais. No entanto, após o evento, o modelo entrou em crise. A falta de investimento, a corrupção e a mudança de prioridades fizeram com que muitas UPPs fossem desativadas ou enfraquecidas, e a criminalidade voltou a crescer.
Dados recentes mostram que a região metropolitana do Rio enfrenta índices de violência que lembram os períodos mais críticos. A promessa de legado de segurança, que incluía a redução de homicídios e a integração social, não se concretizou. As comunidades que antes tinham presença policial constante voltaram a ser dominadas por grupos armados, e o Estado perdeu terreno.
Legado de transporte: além do metrô
Além da Linha 4, o Rio ganhou o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que liga o centro à região portuária, e corredores de ônibus BRT, como o Transoeste e o Transcarioca. Essas obras, embora incompletas, mudaram a forma como a população se desloca. O VLT, em especial, é considerado um sucesso, com alta demanda e integração com outros modais. No entanto, a manutenção e a expansão desses sistemas dependem de investimentos contínuos, que nem sempre são prioridade dos governos.
O corredor Transoeste, que liga a Barra a Santa Cruz, sofre com problemas de manutenção e superlotação. A promessa de criar uma rede integrada de transporte, com bilhete único e integração tarifária, ainda está longe de ser plenamente realizada. A população, especialmente a de baixa renda, enfrenta longos deslocamentos e condições precárias.
Impactos e desafios atuais
O legado da Rio 2016 é um misto de avanços e frustrações. A cidade ganhou infraestrutura, mas não conseguiu sustentar as promessas de transformação social. A expansão do metrô, que era para ser o grande legado de mobilidade, ficou pela metade. A segurança, que era para ser o grande legado de cidadania, se desfez. O crescimento da Barra, que era para ser um polo de desenvolvimento, pressionou a infraestrutura e evidenciou a falta de planejamento de longo prazo.
Para os especialistas, o principal desafio é retomar os investimentos e priorizar a manutenção do que foi construído. A estação Gávea, por exemplo, é um símbolo do potencial desperdiçado. Se operasse, poderia desafogar o trânsito na região e melhorar a mobilidade de milhares de pessoas. No entanto, enquanto não houver vontade política e recursos, o legado da Rio 2016 continuará incompleto.
Segundo o urbanista e professor da UFRJ, Carlos Vainer, "os Jogos Olímpicos foram uma oportunidade única de transformar a cidade, mas a falta de continuidade nas políticas públicas comprometeu os resultados. O que vemos hoje é um legado fragmentado, com obras importantes, mas sem a integração necessária para gerar impacto duradouro".
Números que contam a história
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Linha 4, que tinha previsão de transportar 300 mil passageiros por dia, opera com cerca de 200 mil, abaixo da capacidade. A estação Gávea, pronta desde 2016, nunca recebeu passageiros. O sistema de BRT, que deveria ter 150 km de corredores, tem cerca de 90 km em operação, com várias estações danificadas. Na segurança, os homicídios na região metropolitana, que caíram para 3.500 em 2016, voltaram a subir para mais de 4.000 nos anos seguintes, segundo o Instituto de Segurança Pública.
Esses dados mostram que a Rio 2016 deixou um legado de concreto, mas também de promessas não cumpridas. A cidade segue em busca de um modelo de desenvolvimento que concilie crescimento econômico com inclusão social e qualidade de vida. Enquanto isso, os cariocas convivem com as consequências de um evento que, se por um lado trouxe visibilidade, por outro evidenciou as desigualdades e os desafios estruturais do Rio de Janeiro.



