A população em situação de rua é o tema que mais mobiliza os moradores de Copacabana, segundo enquete promovida pelo GLOBO na Zona Sul do Rio. O assunto, que ficou em primeiro lugar na votação, coloca em evidência um problema que não se limita à ocupação das calçadas: envolve moradores, poder público e uma complexa rede de questões sociais, urbanas e de saúde pública.
A imagem que ilustra a reportagem, captada pelo fotógrafo Domingos Peixoto, mostra pessoas em situação de rua aproveitando a sombra de árvores e das estruturas do Corpo de Bombeiros na Avenida Atlântica. A cena, vista por quem circula pelo bairro, escancara a rotina de muitas pessoas que fazem dos postos de salvamento e das áreas verdes sua moradia temporária ou permanente.
O retrato na Avenida Atlântica
Os postos de salvamento do Corpo de Bombeiros, espalhados pelo calçadão de Copacabana, se tornaram ponto de referência para a população em situação de rua. Na foto publicada pelo GLOBO, vê-se que as estruturas, originalmente destinadas ao atendimento de banhistas, agora servem de abrigo contra o sol forte. As árvores da Avenida Atlântica também aparecem como alternativa de sombra em um dos cartões-postais mais famosos do país.
O cenário não é novo, mas ganhou força na enquete do GLOBO, que perguntou aos leitores quais eram os principais desafios do bairro. A ocupação das calçadas por pessoas sem moradia foi o item mais votado, superando outras preocupações típicas da Zona Sul, como segurança e conservação do espaço público. O resultado revela um incômodo crescente entre os residentes, que convivem diariamente com a situação.
Moradores mobilizados
A mobilização dos moradores de Copacabana em torno do tema não se restringe à votação na internet. Associações de bairro, grupos de WhatsApp e redes sociais têm sido canais para reclamações e cobranças à prefeitura. O argumento mais ouvido é o de que o poder público precisa agir com urgência, conciliando assistência social e a devolução do espaço público à população que frequenta a orla.
Há, no entanto, vozes que pedem cuidado para que a abordagem não se transforme em criminalização da pobreza. O debate, que ganhou as ruas e as redes, expõe a dificuldade de encontrar soluções que atendam ao mesmo tempo às demandas de moradores e às necessidades básicas de quem vive sem teto.
O desafio do poder público
O poder público é chamado a agir em duas frentes: a urgência da assistência social e a pressão por ordem no espaço urbano. A complexidade do problema exige ações integradas de habitação, saúde mental, geração de renda e combate ao uso de drogas. A simples remoção das pessoas das calçadas, sem um acompanhamento contínuo, tende a deslocar o problema para outras áreas da cidade.
Os postos de salvamento, que são administrados pelo Corpo de Bombeiros, ilustram bem essa ambiguidade. Se por um lado oferecem uma estrutura física que acaba servindo de abrigo, por outro representam um ponto de tensão entre banhistas e moradores de rua. A atuação do poder público, nesse cenário, precisa equilibrar a garantia de direitos com a demanda da população que se sente insegura ou incomodada com a ocupação das calçadas.
Uma questão que vai além das calçadas
A ocupação das calçadas é apenas a ponta do iceberg. A população em situação de rua de Copacabana é formada por pessoas de diferentes perfis: há desde idosos e famílias inteiras até jovens em situação de vulnerabilidade, muitos com problemas de saúde mental ou dependência química. A pandemia de Covid-19 agravou o quadro, com o aumento do desemprego e da pobreza, mas a crise é anterior e estrutural.
Especialistas apontam que a solução passa pela construção de uma política pública de longo prazo, que envolva todos os níveis de governo e a sociedade civil. A enquete do GLOBO, ao eleger o tema como o mais importante para Copacabana, sinaliza que os moradores não estão dispostos a aceitar mais do mesmo. O desafio, agora, é transformar a votação em uma agenda concreta de ações que atenda à dignidade das pessoas em situação de rua e, ao mesmo tempo, devolva a tranquilidade às ruas do bairro.
Copacabana, que nasceu como um dos símbolos do Rio de Janeiro, vive o paradoxo de ser palco de um dos maiores problemas sociais do país. A foto de Domingos Peixoto, com as sombras das árvores e dos postos de salvamento, é um convite à reflexão: até quando a Avenida Atlântica será a casa de quem não tem para onde ir?



