Leitores transformam metrô de SP em biblioteca sobre trilhos
Metrô de SP vira palco de leitura entre passageiros

No metrô de São Paulo, os vagões se transformam em salas de leitura sobre trilhos. Passageiros de diferentes perfis ocupam os assentos com livros de gêneros variados: romances, suspenses, biografias, autoajuda e clássicos. Durante os deslocamentos diários, eles aproveitam cada minuto para avançar páginas, seja por indicação de amigos, influência de redes sociais ou simples prazer. Uma reportagem do g1 percorreu estações e perguntou: "O que você está lendo?" (veja vídeo acima).

Entre motivação e ficção

Sentados lado a lado na Linha 2-Verde, a artista e professora Mariel Bonzamota, 35, e o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, 29, carregam livros distintos. Mariel lê "A Neblina", romance escrito por seu aluno Luís de Oliveira. Eduardo relê "Nada Pode me Ferir", autobiografia do ex-militar David Goggins. O livro ganhou significado especial após Eduardo perder uma perna em 2023. "Ler esse livro foi um recurso para me dar um ânimo... Foi como se algo me dissesse 'bora para cima'... Ele superou tudo com problemas de coração", diz Eduardo. Para ele, a leitura também integra a preparação para treinos na academia.

Romances e suspenses no trajeto

A enfermeira Tamires Moraes, 38, transforma o deslocamento entre as estações Saúde (Zona Sul) e Trianon-Masp (centro) em momento de leitura. São cerca de 40 minutos diários. Ela lê "Ecos da Floresta", de Liz Moore. Com uma bebê pequena e rotina intensa, Tamires adaptou o hábito. Antes da maternidade, assinava um clube de livros; hoje, cinco exemplares aguardam na estante. Ela carrega o livro com uma capa de tecido para preservá-lo. O contraste com o cenário nacional é grande: dados de 2024 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram que, pela primeira vez, não leitores são maioria. Mais da metade dos brasileiros não leu nenhum livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024.

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Do TikTok para os vagões

Redes sociais impulsionam parte dos títulos. O jovem aprendiz Kauã Sousa, 18, lê "Novembro, 9", de Colleen Hoover, sucesso no BookTok (comunidade de leitores no TikTok). Ele aproveita principalmente a volta para casa, quando os vagões estão menos cheios. "Na ida é muito cheio. Na volta eu consigo sentar... e ler melhor", explica. O fenômeno ajuda autores a alcançar novos públicos, embora escritoras como Hoover também recebam críticas pela abordagem de temas como violência doméstica.

Redes sociais e novos leitores

A escritora e doutoranda em literatura Bruna Paiva conhece bem esse movimento. Ela ficou conhecida ao abordar passageiros com a pergunta: "O que você está lendo e para onde você está indo?" A ideia surgiu de sua própria curiosidade nos deslocamentos. "Sempre andei muito de transporte público e sempre li muito no metrô. Eu sou fofoqueira. Quando via alguém lendo, ficava tentando descobrir o que era o livro", conta. Ela observa que muitos leitores não querem chamar atenção; apenas aproveitam o tempo disponível. Para Bruna, as redes sociais, especialmente pós-pandemia, aproximam jovens dos livros. "Eu acho o máximo o que isso tem construído entre os jovens. Um desejo por ler literatura, um desejo por conhecer novos autores, um desejo por estar nos eventos literários", afirma. Ela cita a Bienal do Livro: "Você vê jovem chorando porque encontrou o autor favorito. É muito legal. Parece um 'Rock in Rio' dos livros". Bruna começou a produzir conteúdo para divulgar seus próprios livros, mas encontrou público interessado em recomendações. "Eu acho o máximo ver a internet divulgando livros e leitura. Mesmo que a gente compre mais livros do que lê, estimular as pessoas a comprar livros é algo muito positivo."

Uma biblioteca em movimento

O jornalista Fernando Piovezam, morador de Itaquera (Zona Leste), observa esse comportamento desde 2016. Com o projeto "Vi Você Lendo", ele registra passageiros lendo em metrôs e trens durante seus deslocamentos entre a Zona Leste e o Centro. O acervo reúne centenas de imagens de livros físicos, e-readers e celulares, com títulos que vão de Stephen King e Colleen Hoover a livros religiosos, poesia, autoajuda, clássicos e premiados. A variedade mostra que não há um perfil único de leitor no transporte público.

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Um país com menos leitores

A diversidade nos vagões contrasta com os dados nacionais. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) revela que os não leitores tornaram-se maioria pela primeira vez. O país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Paralelamente, pesquisas da Câmara Brasileira do Livro indicam crescimento do consumo entre jovens de 18 a 34 anos, impulsionado por redes sociais. Para Bruna Paiva, o tipo de livro não deve ser barreira: "Tem gente que lê Dostoiévski e tem gente que lê best-seller. Ler também é para ser divertido. Às vezes você lê para descansar a cabeça, às vezes para conhecer uma cultura diferente. Uma coisa não exclui a outra."