Moradores do Jardim Aurora, na zona leste de São Paulo, enfrentam um dilema: vivem em uma área de alto risco de deslizamento, mas o auxílio-aluguel de R$ 600 oferecido pela prefeitura é insuficiente para garantir uma moradia digna em outra região. A Defesa Civil constatou que parte do bairro, onde residem cerca de 16 mil famílias, está na faixa de maior risco geológico, exigindo a construção de um muro de contenção. Para isso, será necessário remover as casas que ocupam o local por onde as máquinas passarão.
Valor do auxílio não cobre aluguel na capital
Segundo o Índice FipeZAP de abril de 2026, um imóvel de 45 m² com dois quartos custa em média R$ 2.889 mensais em São Paulo. Já um apartamento de um quarto, com 30 m², tem aluguel médio de R$ 1.926. Diante desses valores, os R$ 600 oferecidos pela Prefeitura de São Paulo são vistos como irrisórios pelos moradores.
A moradora Tereza Ferreira expressa sua indignação: “Minha casa tem oito cômodos construídos e 15 metros de garagem, cabem três carros. R$ 600, R$ 600 reais aqui, ó, nesse lugar aqui, não paga nem um barraco de telha para morar. Não existe aluguel de R$ 600.” Ela afirma que os moradores não se opõem à remoção, mas exigem um valor compatível com as necessidades.
Moradores reclamam de falta de diálogo
A dona de casa Demezima Ferreira critica a falta de antecedência da prefeitura: “A prefeitura teve um ano e meio para acionar essas famílias. Por que eles não acionaram?” Para ela, a vida das pessoas foi construída dentro dessas casas, e a remoção sem planejamento adequado é desrespeitosa.
Tereza complementa: “Se for obrigado tirar alguma casa, que tire o que for preciso. Mas, se for uma obrigação, que eles tenham o respeito, a dignidade de pagar o valor das casas para o povo que trabalhou, que suou, porque aqui tem gente honesta. Aí vão tirar esses moradores e vão oferecer o que para eles? R$ 600? Isso é valor digno para que eles tenham uma casa, uma vida sólida?”
Risco geológico atinge milhares na capital
O problema do Jardim Aurora não é isolado. Dados obtidos pela TV Globo via Lei de Acesso à Informação revelam que 193.784 imóveis estão em áreas de risco geológico em São Paulo, número que cresce anualmente. Além disso, quase 70 mil imóveis estão em áreas de risco hidrológico, sujeitas a enchentes, o dobro do registrado em 2024.
A situação evidencia a precariedade habitacional na capital paulista, onde milhares de famílias vivem sob ameaça de desastres naturais sem uma política eficaz de realocação.
Posição da Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que, em 18 de maio, a Secretaria Municipal de Habitação realizou uma reunião com os moradores para cadastrar as famílias impactadas e dialogar. Confirmou que fará obras de contenção no Jardim Aurora, pois 40 moradias na Rua Francisco Bitancur estão próximas à encosta e correm risco de desabamento.
A gestão municipal garantiu que todas as famílias afetadas receberão auxílio-aluguel até que haja uma solução habitacional definitiva ou pagamento de indenização pelas benfeitorias. Desde 2021, segundo a prefeitura, milhares de famílias foram retiradas de áreas de risco e mais de 100 obras nessas regiões foram concluídas.



