Há 12 anos, Copa do Mundo provou que futebol é cardiologia sem anestesia
Há 12 anos, Copa provou que futebol é cardiologia sem anestesia

No dia 1º de julho de 2014, ficou provado que a Copa do Mundo não era um torneio de futebol, mas um serviço internacional de cardiologia sem anestesia. A FIFA, sempre preocupada com o bem-estar da humanidade, programou dois jogos que só seriam resolvidos depois dos 90 minutos, porque sofrimento regulamentar era pouco.

Argentina x Suíça: Messi e Di María salvam o dia

Às 13h, na Arena Corinthians, Argentina e Suíça entraram em campo para disputar uma partida e, de quebra, testar a paciência dos vivos. A Argentina tinha Messi, que naquele período era menos um jogador e mais um departamento inteiro do governo argentino. A Suíça tinha organização, pontualidade e aquela irritante capacidade de parecer que estava ganhando mesmo quando estava empatando.

O jogo foi andando, ou melhor, foi sendo empurrado. A bola circulava, voltava, pensava, desistia. Os argentinos atacavam com aquela cara de quem esqueceu onde estacionou a genialidade. Os suíços defendiam como se a grande missão nacional fosse impedir o gol e, se possível, atrasar também a rotação da Terra.

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Vieram os 90 minutos. Nada. Veio a prorrogação. Já se avistavam os pênaltis no horizonte, como urubus educados, quando Messi achou Di María, e Di María achou o canto. Aos 118 minutos, gol da Argentina. Um a zero. O país inteiro respirou, menos os suíços.

Bélgica x EUA: drama em três atos na Fonte Nova

Às 17h, em Salvador, Bélgica e Estados Unidos resolveram que também mereciam um drama em três atos. A Arena Fonte Nova viu outro empate arrastar-se para a prorrogação. Aí apareceram De Bruyne e Lukaku. Dois a zero para a Bélgica. Os americanos ainda descontaram, correram, pressionaram, fizeram cara de filme motivacional, mas terminou 2 a 1. A Bélgica avançou; os Estados Unidos descobriram que nem todo roteiro hollywoodiano permite final feliz.

Uma data que marcou o início do Crônica por quilo

Naquele dia, portanto, o futebol ensinou uma verdade útil: certas coisas só acontecem quando têm que acontecer. Gols, sustos, despedidas, começos. E foi exatamente num 1º de julho de 2014, há 12 anos, que escrevi minha primeira crônica nos blogs do Estadão: nascia ali o Crônica por quilo.

Naquele dia, eu também fui escalado, embora minha bola fosse um teclado. Sem Messi, sem Lukaku, sem VAR e sem preparo psicológico, tentei empurrar uma ideia até o gol. Desde então, faço mais ou menos isso: observo a vida tocar de lado, reclamo do juiz, peço acréscimos e, quando dá, chuto no canto. Porque crônica é algo por aí: um chute torto que, com sorte, alguém chama de estilo.

A Copa acabou dias depois. Minhas crônicas continuam em campo.

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