Um novo estudo do Observatório Europeu do Sul (ESO) alerta que o aumento exponencial da frota de satélites em órbita da Terra pode tornar inviável a astronomia moderna. Segundo a pesquisa, empresas privadas planejam colocar cerca de 1,7 milhão de objetos orbitais nos próximos anos, o que comprometeria a capacidade de observação de supertelescópios como o Very Large Telescope (VLT) e o futuro Observatório Vera Rubin.
Poluição visual compromete observações
Os satélites em órbita baixa, especialmente aqueles com superfícies refletivas, criam trilhas luminosas que contaminam imagens astronômicas de longa exposição. O estudo mostra que, com a densidade projetada, praticamente todas as imagens noturnas teriam ao menos uma trilha de satélite, prejudicando a coleta de dados científicos.
Empresas como a SpaceX, com sua constelação Starlink, e a Reflect Orbital, que planeja lançar espelhos orbitais para refletir luz solar, estão no centro das preocupações. A Reflect Orbital pretende colocar em órbita um conjunto de espelhos que poderiam iluminar regiões da Terra durante a noite, mas que também aumentariam drasticamente a poluição luminosa no céu.
Impacto em supertelescópios
O ESO destaca que telescópios de última geração, como o VLT no Chile e o futuro Extremely Large Telescope (ELT), seriam os mais afetados. “A astronomia moderna depende de observações precisas e de longa exposição. Com dezenas de milhares de satélites visíveis a cada noite, perderemos a capacidade de estudar objetos celestes fracos e distantes”, afirmou o astrônomo do ESO, Dr. Markus Kneissl, em comunicado.
O estudo quantifica o problema: com 1,7 milhão de satélites, a probabilidade de uma imagem do VLT ser contaminada por trilhas de satélites ultrapassaria 50% em exposições de 30 segundos. Para o Observatório Vera Rubin, que fará varreduras completas do céu a cada três noites, a contaminação seria ainda maior.
Soluções propostas
O ESO sugere medidas para mitigar o impacto, como limitar o número total de satélites em órbita baixa a 100 mil e proibir o lançamento de espelhos orbitais. “Precisamos de regulamentação internacional urgente para proteger o céu noturno como patrimônio científico e cultural”, defendeu Kneissl.
Outras recomendações incluem o desenvolvimento de tecnologias para escurecer satélites e a coordenação entre operadoras para reduzir reflexos. No entanto, o estudo reconhece que, sem ações concretas, a astronomia baseada em solo pode sofrer danos irreversíveis nas próximas décadas.



