No Instituto Silvestre, localizado na comunidade Antares, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro, as tradicionais festas juninas ganham um novo significado. Fantasias que um dia desfilaram no carnaval são reaproveitadas e transformadas em figurinos para apresentações de quadrilha. A iniciativa, liderada pela professora Rose Paixão e seus alunos, não só preserva a cultura, mas também promove a reciclagem e a inclusão social.
Do carnaval à quadrilha: a reciclagem criativa
Rose Paixão explica que coleta materiais descartados por escolas de samba após os desfiles. "Quando a gente não vai pra Marques de Sapucaí, nós vamos pra Intendentes Magalhães. Então, vai meus amigos, eles me ajudam, nós pegamos sacos e enchemos bastante de reciclagem e transportamos no início do ano, assim, no carnaval, pra eu poder fazer a customização das roupas", conta a professora.
Durante quatro meses, Rose e as crianças reciclam e transformam tecidos de fantasias carnavalescas em roupas típicas de quadrilha. "Quando termina uma eu já penso no tema do próximo ano, então eu vou focar na reciclagem que tem a ver com o tema. Mesmo se não tiver a ver com o tema, eu trago também pra poder reaproveitar, de qualquer forma. O trabalho está muito mais emocionante, muito mais cativante, com muito mais carinho e amor, devido às crianças", acrescenta.
Projeto atende cerca de 600 pessoas
O Instituto Silvestre oferece atividades que vão além da dança e da reciclagem. A sede principal, em Antares, tem quase 500 pessoas matriculadas, enquanto a unidade em Urucânia atende outras 100. Crianças, adolescentes, jovens e adultos participam de aulas de dança, oficinas de reciclagem, capoeira, esportes, informática e cursos profissionalizantes.
Maria Eduarda Almeida, de 12 anos, relata a transformação em sua vida: "Quando eu não era do projeto, eu não sabia o que fazer. Então, quando eu entrei no projeto, eu dancei, eu fui saber o que era cultura, o que era amor, o que era dividir amor um para o outro e ajudar o outro". Laura Duarte, 9 anos, que participa há três anos, diz: "Eu sinto amor, sinto paixão por aqui, porque quando eu não era daqui eu não conhecia ninguém. Eu ficava aí brincando na rua. Quando eu entrei aqui eu comecei a conhecer várias pessoas". Nicolas Almeida, 11 anos, também expressa sua gratidão: "É um amor, eu me sinto muito bem, eu aprendi a dançar, eu não tinha amigo na rua direito pra brincar, aí eu entrei, aí comecei a brincar com meus amigos. Eu aprendi também a respeitar os professores".
Educação e cidadania no centro das ações
A secretária do projeto e assistente social, Jaqueline Leocádio, detalha as atividades educativas. "As atividades educativas acontecem de segunda e quarta, onde a gente tem dois turnos de educativa. E lá, trabalhamos a leitura, que é a importância da leitura com as crianças". Além disso, o instituto promove campanhas de conscientização, como o Maio Laranja, contra o abuso sexual, encerrando com uma caminhada que ensina as crianças sobre os recursos do Conselho Tutelar.
"Nós temos o esporte, que é o futebol. Temos atividades de ginástica para jovens, adultos e idosos. Temos atividade educativa, que a gente trabalha cultura, arte, cidadania, para nossas crianças e adolescentes. Temos capoeira. Temos o projeto arte na favela, que a gente recicla material da comunidade para transformar em arte. Temos aula de informática", enumera Jaqueline.
'Resgatando sonhos': a trajetória do fundador
O lema do instituto, "Resgatando Sonhos", reflete a história do fundador, o pedagogo Paulo Roberto Silvestre Conrado. Morador da comunidade, ele reuniu moradores para assumir o espaço antes ocupado por outra organização. "A minha motivação veio do meu nascer, porque a minha vida foi muito dificultosa. Eu tenho quase trinta irmãos, parte de pai. Os meus pais, eles eram de drogas, eles eram alcoólatras. Eu não podia estudar. Até então que eu terminei meu estudo com 25 anos, porque foi muito dificultoso", recorda.
Hoje formado em Pedagogia, Paulo incentiva os jovens: "Hoje eu sou um pedagogo. Hoje eu trago a credibilidade pra comunidade, trago o meu impulso, que eu falo pra eles que a gente pode. A gente pode crescer, não importa quem mora em favela. Tem que acreditar em si, acreditar no seu potencial e meter as caras, porque a minha vida foi dificultosa e eu não desisti".
Transformação social e perspectivas futuras
Jaqueline Leocádio destaca o impacto do projeto. "A gente sabe das dificuldades do dia a dia. É difícil não se emocionar, porque a gente está aqui como ferramenta de transformação dentro da comunidade. E a gente vê famílias restauradas, estruturadas com os nossos projetos, é muito gratificante. Não dá vontade de parar, é um incentivo quando a gente vê um jovem que passou pelo projeto nosso". Ela ressalta que muitos participantes conseguem emprego ou abrem o próprio negócio. "Os crias que transformam são inseridos no mercado de trabalho. Ou então abrir seu próprio comércio, sua barbearia, assim, a sensação de trabalho cumprido, de dever cumprido, o coração ficar quentinho, de ver aquela família hoje não pedindo uma cesta básica, mas comprando seu alimento e a gente saber que foi a ponte de transformação para aquela família. Então é muito gratificante, é puro amor e pezinho no chão e correr atrás para a gente continuar fazendo esse trabalho".
Para Paulo, o maior prêmio é ver o crescimento dos atendidos. "O meu sentimento de realização é muito gratificante, porque a gente vê tantos rostinhos, aquelas crianças que vêm tristes, sem um apoio familiar. Então aqui nós estamos para poder abraçar juntamente com o serviço social, que ele dá todo esse suporte, esse apoio, essa comunhão". Ele conclui: "E a gente vê as crianças crescendo, a gente vê saindo daqui para poder ir para jogar bola. Ou então falar, Paulo, eu consegui fazer um curso e tal, estou trabalhando em uma empresa e tal. Então é muito gratificante acolher e ver o resultado futuro".
Com o lema "Resgatando Sonhos", o Instituto Silvestre mostra que a união entre reciclagem, cultura e cidadania pode transformar realidades. A professora Rose Paixão, emocionada, resume: "Para mim, é muito importante ter eles comigo, porque foi um momento da minha vida muito difícil. Quando eu comecei estar com eles aqui na ONG, a princípio eu não queria, porque eu não me via trabalhando com crianças. Mas depois, com o passar do tempo, eu passei a amá-los muito, muito mesmo. Eu sou rígida, brigo bastante, mas não vivo sem eles".



