Uma câmera de segurança flagrou o momento em que um carro em alta velocidade derrubou o teto de uma praça de pedágio em Campinas (SP), no domingo (26), resultando na morte do motorista, de 24 anos. O veículo passou pela faixa zebrada, atingiu uma mureta de contenção de concreto e foi lançado contra a viga superior, que desabou. Especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ouvidos pelo g1 explicaram que a combinação da alta velocidade com o formato inclinado da estrutura fez com que a contenção atuasse como uma rampa, projetando o carro para o alto.
Análise dos especialistas da Unicamp
De acordo com o professor do Departamento de Física Aplicada da Unicamp, Leandro Tessler, o veículo atingiu a extremidade afunilada e inclinada da contenção. “O que causou essa decolagem foi a ponta em cunha”, disse. Ele explicou que o ângulo da mureta, aliado à velocidade do carro, transformou a barreira em uma rampa. “Foi um monte de coincidências infelizes. Se não fosse aquela forma de rampa, o carro não decolaria”, afirmou. Tessler destacou que a trajetória após o contato depende principalmente da velocidade, de modo que um veículo mais leve ou mais pesado teria comportamento semelhante nas mesmas condições.
O professor da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, Creso de Franco Peixoto, afirmou que a dinâmica da batida sugere uma grande quantidade de energia envolvida. Para ele, o fato de o veículo atingir a mureta, “alçar voo” e ainda provocar danos na cobertura indica velocidade muito elevada. “Tem a muretinha de concreto que é um concreto frágil. Bateu, desmonta. Logo depois tem os pilares, e não é um só. Têm dois, três pilares para distribuir a energia”, explicou.
O papel da infraestrutura no acidente
Segundo Tessler, sem a ponta inclinada, o carro provavelmente não teria sido arremessado contra a cobertura. No entanto, uma barreira com outro desenho poderia fazer o veículo colidir diretamente com uma pilastra da estrutura do pedágio. “Uma colisão direta com uma viga seria mais forte, mais energética do que o que aconteceu com o carro”, avaliou. O especialista ressaltou que existem outros modelos de contenção utilizados em rodovias, mas a estrutura da praça de pedágio foi projetada para situações normais de circulação.
Já o professor de Engenharia de Transportes da Unicamp, Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, disse que não há legislação específica sobre os tipos de barreira em praças de pedágio. Para ele, casos como esse podem servir para discutir a adoção de dispositivos complementares capazes de reduzir os efeitos de impactos extremos.
Medidas de prevenção e segurança viária
Embora classifiquem o caso como raro e sem precedentes, os especialistas avaliam que o episódio pode embasar discussões sobre novas medidas de segurança em praças de pedágio. Mello Filho sugeriu a instalação de terminais de absorção de energia, já utilizados em alguns pontos de rodovias, especialmente em áreas de bifurcação, para reduzir a força de colisões frontais. “Ele funciona como se fosse uma mola, só que ao invés de voltar, ele só vai”, explicou. O sistema absorve parte da energia do impacto, evitando que o veículo decole. Contudo, a velocidade observada estava muito acima do esperado para a aproximação de um pedágio, e mesmo esses equipamentos teriam capacidade limitada para eliminar completamente os danos.
Peixoto destacou que as praças de pedágio contam com mecanismos de segurança, como muretas de concreto frágil e múltiplos pilares para distribuir a energia. Além disso, as rodovias possuem faixas de indução de velocidade antes dos pedágios, que produzem ruído e vibração para alertar os motoristas. “A faixa não é alta, mas ela tem altura suficiente para bater no pneu. [...] Bate na mão do motorista, ele sente além do ruído”, afirmou. Para ele, a prevenção passa pelo respeito aos limites de velocidade e por políticas de segurança viária, citando excesso de velocidade, álcool e direção e uso do celular como principais fatores de risco. Ele defendeu a fiscalização por velocidade média em trechos de rodovias.
Posicionamento da concessionária
A Renovias, concessionária que administra o trecho, informou em nota que a área de Engenharia monitora e avalia a integridade da estrutura desde o acidente, além de realizar estudos técnicos para a reconstrução. Ao longo da segunda-feira (27), a concessionária trabalhou para reativar as cabines manuais e automáticas afetadas.
O acidente gerou comoção e reacendeu o debate sobre segurança em praças de pedágio. As autoridades locais e a concessionária devem avaliar possíveis melhorias na infraestrutura para evitar tragédias semelhantes.



