Pelo segundo ano consecutivo, a Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, é o distrito com pior qualidade de vida da capital paulista, segundo o Mapa da Desigualdade 2025, elaborado pela Rede Nossa São Paulo. O levantamento analisa mais de 50 indicadores em áreas como saúde, educação, moradia, mobilidade, segurança e meio ambiente nos 96 distritos da cidade.
Contraste entre regiões
Os dados revelam um contraste marcante entre diferentes regiões. Enquanto a Consolação, distrito mais bem colocado, registra expectativa de vida média de 80 anos, na Brasilândia os moradores vivem, em média, até os 64 anos — uma diferença de 16 anos. No topo do ranking aparecem Consolação, Moema e Alto de Pinheiros, que concentram os melhores indicadores. Na outra ponta estão Cidade Ademar, Vila Medeiros e Brasilândia, com os piores desempenhos.
Divisão territorial
O levantamento evidencia uma divisão territorial da cidade: as primeiras colocadas estão no centro expandido, enquanto as últimas posições se concentram em bairros periféricos. Com mais de 400 mil habitantes, a Brasilândia enfrenta desafios históricos de acesso a serviços públicos. O líder comunitário Henrique Deloste, da Associação de Moradores da Brasilândia, destaca as dificuldades na saúde. "A população tem sofrido com a dificuldade para conseguir consultas, exames e vagas na rede pública de saúde. A AMA/UBS Integrada Jardim Ladeira Rosa, por exemplo, precisa de mais atenção do poder público. Também precisamos de mais investimentos em cultura, lazer e transporte", afirma.
Mobilidade e desigualdade
Segundo Deloste, uma das principais reivindicações é a ampliação da rede de transporte sobre trilhos. "Há anos solicitamos a expansão do transporte até a região da Avenida Inajar de Souza para beneficiar os trabalhadores que dependem diariamente do transporte público. Precisamos de mais atenção do poder público", diz. O Mapa da Desigualdade mostra que a mobilidade aprofunda as desigualdades. Em Marsilac, no extremo sul, moradores gastam em média 71 minutos em deslocamentos de transporte público no horário de pico da manhã; em Pinheiros, são 25 minutos — quase três vezes menos.
Investimentos prioritários
Para Jorge Abrahão, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis, os dados indicam que os investimentos públicos devem priorizar as regiões mais vulneráveis. "Saúde, educação e habitação são mais precárias nesses territórios. A mobilidade também é mais difícil porque a oferta de transporte é menor e os empregos estão concentrados no centro expandido. Além disso, os indicadores de segurança costumam ser piores nos bairros periféricos", afirma. Na Brasilândia, um em cada quatro moradores vive em habitações consideradas precárias. "A desigualdade territorial produz uma série de problemas sociais e reduz as oportunidades de parte significativa da população", completa Abrahão.
Respostas do poder público
Sobre as reclamações de transporte, o Governo de São Paulo informou que a Linha 6-Laranja do Metrô atenderá diretamente a Brasilândia. O primeiro trecho, entre São Joaquim e Perdizes, deve ser entregue ainda neste ano, enquanto a estação Brasilândia tem previsão de operação até o fim do ano. Já a Prefeitura de São Paulo afirmou que os investimentos municipais consideram as diferentes realidades dos territórios. Em saúde, a UPA Jardim Elisa Maria I passou a contar com novas especialidades médicas e outras unidades foram entregues na região. Em cultura, destacou equipamentos como a Casa de Cultura da Brasilândia, a Biblioteca Afonso Schmidt e o cinema do CEU Paz. Em mobilidade, criou 54 quilômetros de faixas exclusivas de ônibus na cidade, e a Brasilândia é atendida por 67 linhas de ônibus que conectam o bairro à rede de transporte sobre trilhos e a regiões como Lapa, Santana e Barra Funda.



