Berranteiro que cruzou as Américas volta ao Brasil montado em mulas
Berranteiro cruza Américas e volta ao Brasil em mulas

Depois de quase três anos, 16 países e cerca de 60 mil quilômetros percorridos pelas Américas, o berranteiro Pedro Henrique Biondo Matias voltou para Orindiúva, no interior de São Paulo. Dessa vez, ele não estava na caminhonete adaptada que o levou até os Estados Unidos, mas montado em duas mulas: Ada e Oklahoma. A chegada, no sábado (25), foi marcada por festa, desfile e a emoção do reencontro com familiares e amigos.

Natural de Orindiúva, Pedro ficou conhecido como "Berranteiro das Américas" e acumula 1 milhão de seguidores nas redes sociais. Acompanhado do border collie Bastião, ele partiu em 28 de agosto de 2023 com um objetivo ousado: cruzar o continente de ponta a ponta e resgatar a tradição dos antigos peões e tropeiros. Antes disso, porém, a vida dele era outra: formado em engenharia civil, trabalhava na área e levava uma rotina estável, que abandonou para realizar um sonho amadurecido por dois anos.

Da caminhonete ao lombo de mulas

O plano inicial era fazer a viagem de ida e volta sobre quatro rodas. Pedro adaptou uma caminhonete na garagem de casa, levantou a documentação necessária, estudou mapas e rotas e partiu rumo aos Estados Unidos. A primeira etapa foi concluída em 12 de abril de 2024, quando estacionou em Laredo, no Texas, depois de rodar 50 mil quilômetros com Bastião ao lado. De lá, conheceu 35 estados norte-americanos antes de tomar a decisão que mudou a expedição: voltar para casa sobre o lombo de mulas.

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A mudança foi uma homenagem aos peões que, antes da existência das rodovias, cruzavam fronteiras conduzindo tropas. Pedro passou 50 dias amansando os animais, que ganharam os nomes de Ada e Oklahoma, em referência ao estado de onde vieram. Também precisou treinar Bastião para montar nas mulas. Em outubro de 2024, começou oficialmente o retorno, com a meta de percorrer cerca de 30 quilômetros por dia para preservar a saúde dos animais.

Suporte na estrada e recepção calorosa

Viajar com mulas por dez países exigiu uma diplomacia que a caminhonete não exigia. Sem protocolos sanitários internacionais definidos para esse tipo de transporte, Pedro dependia de negociação direta com as autoridades de cada fronteira. No México, ganhou o reforço do amigo Gustavo Paloni, médico veterinário, que foi buscar a caminhonete usada na ida e seguiu apoiando a comitiva com suprimentos, água e medicação. Desde então, percorreu 10 mil quilômetros sobre o lombo dos animais.

A recepção no Brasil foi amplificada pela solidariedade. Comitivas do Acre e de Rondônia se uniram ao berranteiro, e ele contou que, todos os dias, pessoas que ele nunca havia visto surgiam na estrada com cavalos e mulas para acompanhar trechos do percurso. Em Orindiúva, a chegada foi celebrada com almoço e um desfile organizado pelos moradores.

O reencontro, no entanto, também teve um gosto amargo. Dois meses antes do fim da viagem, o avô de Pedro morreu. O berranteiro disse que imaginava o avô sentado na calçada esperando por ele. Apesar da dor, o acolhimento de amigos e familiares amenizou o luto. "Eu senti muita falta da minha avó, da comida que ela fazia, o carinho e o jeito dela. Foi muito bom rever as pessoas que tinha contato antes de ser o 'Berranteiro das Américas'", afirmou.

Um novo olhar sobre a vida

O convívio com a estrada, os perrengues e a generosidade alheia transformou Pedro. "Eu voltei uma pessoa diferente, aprendi a ser mais humilde e vi que a gente depende muito da ajuda das pessoas todos os dias. Eu sabia que ia ter que abrir mão de várias coisas, mas valeu a pena. Eu buscava motivação para viver e encontrei", celebrou.

Nômade por quase três anos, ele dormiu em redes, fazendas, barracas improvisadas ou em casas de desconhecidos que atenderam ao pedido de pouso. As despesas foram cobertas por patrocínios, doações de seguidores, rifas e venda de produtos pela internet. Tudo isso depois de enfrentar temperaturas de até sete graus negativos no México, que o fizeram valorizar ainda mais um banho quente. Foi lá também que o cheiro de cana-de-açúcar queimando em uma estrada da zona canavieira fez o coração do paulista acelerar: era como estar perto de casa.

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Por que mulas?

O veterinário Gustavo Pereira Paloni, que acompanhou Pedro na volta, explicou que as mulas são historicamente usadas para longas jornadas por causa da resistência. "É como um atleta. Um jogador de futebol não consegue correr 90 minutos sem preparo. Com as mulas acontece a mesma coisa: elas precisam estar bem treinadas, condicionadas e alimentadas", comparou. Cada mula era montada por 15 quilômetros por dia, e a dupla viajava até seis dias seguidos, com pausas de até quatro.

O doutor em Zoologia Thiago Davanso acrescentou que a mula reúne características de força e inteligência. Como é um híbrido de jumento com égua, exige menos água e alimento. "É um animal de extrema eficiência se bem cuidado e bem tratado. Ele pode viver de 40 a 45 anos. Ela é usada para o transporte em locais de difícil acesso para carros, como trilhas de montanhas. Ela tem o porte de um cavalo, mas é muito mais resistente e inteligente", concluiu.

Última etapa em Barretos

O projeto do Berranteiro das Américas, porém, ainda não terminou. Após o descanso em Orindiúva, Pedro vai selar Ada e Oklahoma novamente no dia 15 de agosto para o ato final: a cavalgada até a Festa do Peão de Barretos, maior rodeio da América Latina. A previsão é que a comitiva chegue ao recinto entre os dias 21 e 22 de agosto.

Bastião, o cão que ficou famoso ao fazer um "dueto" com a cantora Ana Castela, segue como companheiro de estrada. A festa, que reverencia a cultura sertaneja, vai marcar o encerramento de uma jornada que começou em uma caminhonete e terminou sobre quatro patas, levando Pedro o cheiro de cana-de-açúcar queimando no México como lembrança de casa.