Estátua de 11 metros do Diabo é erguida na Taíba, no Ceará
Estátua de 11 m do Diabo é erguida em Taíba, no Ceará

Diabo, Lúcifer, Belzebu, Satanás. A nomenclatura varia conforme a prática religiosa, mas, para Mãe Rainha das Trevas — nome que consta no registro da feiticeira responsável pela obra —, a força sobrenatural é a mesma. Foi essa entidade que ganhou uma estátua de 11 metros de altura no distrito da Taíba, em São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana de Fortaleza. O monumento foi inaugurado no último dia 25 de julho, durante cerimônia que comemorou os 29 anos do Palácio Estrela Negra da Quimbanda, templo chefiado pela líder religiosa.

“É a maior estátua do Diabo no mundo. Não existe outra estátua com essa dimensão. Eu procurei me informar”, garantiu a feiticeira, que preferiu não revelar a própria idade e disse, ao ser questionada pelo g1, que o número é “mistério”. A região onde a obra foi erguida é conhecida por sítios, ruas de areia e brisa do mar — e o monumento, instalado em propriedade privada, tornou-se impossível de passar despercebido.

Construção custou mais de R$ 100 mil

Mãe Rainha das Trevas afirmou que gastou mais de R$ 100 mil para idealizar e levantar a estátua, com dinheiro exclusivamente próprio. “A verba foi toda tirada do meu próprio bolso. Eu fiz ela toda com dinheiro próprio, num local próprio, que é meu, porque aqui as terras são minhas, o terreno é meu”, explicou. O projeto contou com a assinatura de um engenheiro civil, mas a líder não informou quanto tempo a construção levou.

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A feiticeira destacou que toda a parte burocrática foi resolvida dentro da legalidade. “Na parte burocrática, eu mesma fui atrás de toda a liberação da construção e obtive, como qualquer cidadã brasileira pode chegar a qualquer prefeitura de seu município e pedir uma autorização para fazer uma construção em suas terras”, disse. Segundo ela, a obra foi feita dentro da sua propriedade, e não em um local público.

Licenças e legislação

A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), informou em nota que o templo religioso cumpriu a legislação ambiental e urbanística. A emissão da Licença Ambiental e do Alvará de Construção ocorreu após autorização do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA), já que o empreendimento está localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Litoral Oeste.

“Ressalta-se que o licenciamento ambiental e urbanístico analisa a conformidade do projeto com as normas urbanísticas e ambientais. A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência dos atos administrativos e o respeito à liberdade de crença e de culto, direito fundamental assegurado pelo artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal”, completou o governo municipal.

Preconceito e intolerância religiosa

A inauguração foi compartilhada no Instagram de Mãe Rainha das Trevas, que acumula quase 800 mil seguidores. A publicação rendeu comentários positivos de pessoas com fé semelhante, mas também ataques preconceituosos. A líder religiosa afirma que o preconceito não começou com a estátua: antes, ela comandava a Casa dos Caixões, no bairro Montese, em Fortaleza, onde morou por quatro anos.

“Os comentários preconceituosos não começaram na construção da maior imagem do Diabo no mundo. Eles começaram lá atrás, quando eu abri a Casa dos Caixões. Imagina uma casa, numa comunidade, toda pintada de preto, com quatro caixões dentro, onde eu reverenciava a minha fé ao Diabo”, lembrou. No Brasil, a Lei nº 7.716/1989 define como crime a discriminação ou o preconceito por religião, incluindo incitação ao ódio.

Atividades do templo e ações sociais

O Palácio Estrela Negra da Quimbanda é aberto ao público, e as giras — como são chamadas as sessões religiosas — ocorrem uma vez por mês, além de festas em homenagem às entidades. Mãe Rainha das Trevas estima que entre 200 e 300 pessoas participem desses eventos. Apesar dos ataques virtuais, ela diz não temer vandalismo: “Toda a minha comunidade sabe da minha fé, me respeita. Aqui nós mantemos muito a situação do respeito”.

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A feiticeira também realiza ações sociais. Anualmente, doa toneladas de carne (frango, boi e bode) para aproveitar os animais sacrificados nos rituais. No Dia das Crianças, em outubro, promove uma festa com distribuição de centenas de brinquedos.

“A diferença de eu falar dos demônios para algumas pessoas é que elas falam o nome ‘demônio’ em termos pejorativos, e eu falo o nome demônio com muito amor, pois os demônios são bons, os demônios ajudam. Os demônios sempre estão de braços abertos para receber aqueles que precisam da ajuda deles”, disse a bruxa.

Quimbanda, um culto marginalizado

A quimbanda não é reconhecida formalmente como religião e é descrita como um culto a entidades como exus e pombagiras. Diferentemente de religiões com livros sagrados, como Bíblia, Alcorão e Torá, seus fundamentos são repassados oralmente. Para o sacerdote Barok, que se apresenta como Tata N'ganga de Quimbanda brasileira, a prática é frequentemente mal vista. “É um culto que, para muitos, é chamado de culto marginalizado, porque as pessoas têm uma certa visão da quimbanda, como se fosse um culto do mal”, comentou.

De acordo com Barok, Tata N'ganga é uma espécie de mestre ritualista ou sacerdote supremo na quimbanda. “Tata” significa “pai” ou sacerdote na linhagem Congo-Angola, enquanto “N'ganga” designa o curador, feiticeiro ou mestre na manipulação de energias e espíritos ancestrais. O sacerdote explicou que a quimbanda já foi tratada como o “eixo ruim, do mal” da Umbanda, mas que isso foi “uma mera história inventada, por pessoas que tinham um certo preconceito”.

Não há consenso sobre a origem do culto. Conforme Barok, o nome foi tomado emprestado dos povos bantos: os curandeiros das tribos, chamados de “kimbanda” com a inicial “k”, faziam a arte da magia para curar. Já a reencarnação, um dos pilares do culto, é encarada como um castigo espiritual. “Nós, na quimbanda, procuramos evoluir nosso espírito dentro da religião para que nós não precisemos ter que voltar a este mundo. O nosso intuito é evoluir espiritualmente para que nós nos tornemos exus e pomba-giras”, complementou.