Entre dancinhas e “gelas”, Nattan realizou um show de quase duas horas no Ribeirão Rodeo Music 2026. A apresentação, porém, gerou polêmica após o cantor admitir que o consumo de álcool antes do show comprometeu sua performance. Em Maracanaú, no Ceará, ele repetiu uma música diversas vezes e prometeu uma nova apresentação com o padrão de qualidade que seu público conhece.
Autocrítica e debate nos bastidores
A autocrítica de Nattan reacendeu uma discussão antiga na música: o impacto do álcool na rotina de shows. O cantor não disse se vai abandonar a bebida, mas reconheceu que o entusiasmo e a bebida consumida no camarim atrapalharam. Semanas antes, Murilo Huff revelou em entrevista a Renato Sertanejeiro que reduziu drasticamente o consumo de álcool após uma conversa com Luan Santana em 2022. No ano passado, João Gomes moderou a bebida por questões de saúde, diagnosticado com gordura no fígado. Ele abandonou o costume de tomar duas doses de cachaça por show.
Zé Neto, dupla de Cristiano, também deu um relato forte. Em entrevista a Luciano Huck, contou que entrou em um ciclo perigoso de remédios, bebida e cigarro para aguentar a rotina de shows antes de aceitar o diagnóstico de depressão. Em 2024, a dupla anunciou uma pausa para tratar a doença. O cantor usava a bebida como mecanismo para enfrentar crises de depressão e síndrome do pânico.
Consumo de álcool e qualidade das apresentações
O consumo de bebida alcoólica antes ou durante apresentações sempre fez parte dos bastidores. Mas esses relatos recentes mostram que a prática pode impactar diretamente a qualidade das apresentações e trazer questões de curto a longo prazo para a voz, imagem, saúde e carreira dos artistas.
Conexão com o público e alerta da produção
Uma profissional da produção do universo sertanejo, que preferiu não se identificar, afirmou ao g1 que existe uma “geração de cantores que forçam a barra com a bebida nos palcos para querer gerar conexão com o público. ‘Ah, eu também gosto de beber, sou como vocês’. Aí, uma hora passa da conta. Um dia, perde a linha”. Ela diz que, como o álcool faz parte da cultura de shows de gêneros como sertanejo e forró, a produção só fica atenta quando o consumo se torna grave. “Quando a produção identifica como um problema, todo mundo fica com medo.” Um exemplo emblemático foi Zé Neto: todas as bebidas foram tiradas do camarim da dupla.
Virada de chave: Murilo Huff e Luan Santana
Em maio, Murilo Huff relembrou que um encontro com Luan Santana o fez mudar sua visão sobre o consumo de álcool. Em 2022, foi convidado para se apresentar no “Luan City”, em Goiânia. “Eu estava empolgado e entrei na cana. Fiz um show bacana. Só que no show do Luan, ele me chamou pra cantar com ele. Eu cheguei nele todo animado e falei: ‘bora, nego, vamos tomar uma. O que você tá bebendo aí?’. Luan respondeu que estava bebendo somente água. ‘Rapaz, eu falei: nossa, eu sou um bosta. O cara é o Luan Santana, irmão, o cara faz sucesso há quantos mil anos?’. A partir desse dia eu parei de beber em show. Não cortei. Mas reduzi muito.” Murilo contou que antes chegava a beber uma garrafa de gim ou vodca em seus shows.
A psicóloga Juliana Chiavassa explica: “O álcool dá uma sensação de liberdade, descontrai. Mas para o artista, a gente precisa lembrar que é o trabalho dele. Ele está sendo muito avaliado naquele momento e espera-se que, assim como em qualquer outro trabalho, a pessoa não esteja alcoolizada. O álcool afeta a cognição, a memória. Ele pode esquecer letra, desafinar, falar algo que sóbrio não teria coragem. A visibilidade do artista é muito maior, então a longo prazo isso pode ser prejudicial para a imagem.”
Comprometimento de performance: o caso Nattan
No show polêmico, Nattan cantou “Na Casa da Vizinha” dezenas de vezes. Nas redes sociais, há relatos de que ele “não conseguiu cantar de tão bêbado” e que esse comportamento é comum. A fonoaudióloga Thays Vaiano afirma: “O cantor está ali como profissional. Quem se diverte é o público. Às vezes isso se mistura: o cantor entende que ali é um momento de festa, de entretenimento para ele também. E não é. Ali é o ambiente profissional dele. Antigamente existia o mito de que um gole de conhaque melhora a voz. Isso é inverdade. O álcool não melhora a voz, piora. Mas inibe o crivo e faz a pessoa se sentir mais solta, menos inibida.”
Perda de inibição e controle da voz
O álcool traz desinibição, mas também descontrole vocal. Thays Vaiano lista quatro formas de interferência:
- Desidratação: efeito diurético retira hidratação das cordas vocais, causando maior esforço, fadiga vocal e, a longo prazo, lesão na prega vocal.
- Perda de coordenação motora: afeta a musculatura do canto, resultando em desafinação, dificuldade para controlar respiração e erros de ritmo.
- Menor percepção do esforço: o cantor perde a noção do volume da voz, força mais, gerando desgaste e risco de lesões.
- Refluxo: o álcool é um dos principais desencadeadores do refluxo ácido, que machuca as cordas vocais, irrita as pregas e piora o desempenho.
A agenda apertada dos artistas não permite recuperação total. “O álcool por si só não leva a cirurgia, mas o uso prolongado de voz lesada com esforço pode exigir reabilitação”, explica Thays. A fonoaudióloga Leny Kyrillos acrescenta que destilados provocam “pseudoanestesia”: a pessoa força sem sentir, e o estrago aparece depois.
Muito além do problema com a voz
O hábito pode se tornar dependência. “Se ele precisa do álcool para cantar, já configura alcoolismo”, alerta Thays. A psicóloga Juliana complementa: “Você só sobe no palco se tiver bebido? Se acha o show ruim sem beber, isso é dependência. Não precisa beber duas garrafas de vinho para ser vício. É o quanto o álcool ocupa espaço na vida do artista.” Ela alerta para a necessidade de álcool em outras atividades profissionais, como fotos, gravações ou composições. “Artisticamente, o que você faz da sua carreira sem a bebida?”
A nova geração está mudando?
Artistas como Bruno e Marrone, Leonardo e Zeca Pagodinho sempre consumiram álcool nos palcos. Mas os depoimentos recentes de artistas mais jovens podem significar uma mudança de padrão ou o reflexo de uma fase em que famosos mostram mais sua “vida real”, contando dores e batalhas sobre saúde mental. “As pessoas hoje são mais esclarecidas e entendem a necessidade de se cuidar. A voz é multifatorial, sofre impacto de tudo que afeta o corpo”, afirma Leny Kyrillos. “Hoje há uma consciência maior, principalmente entre os jovens, que em geral estão bebendo menos. Há maior procura pela saúde e longevidade da voz.”



