Nova espécie de molusco é descoberta no Paraná em fóssil de 400 milhões de anos
Nova espécie de molusco é descoberta no Paraná em fóssil antigo

Uma nova espécie de animal foi descoberta em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, após a análise de um fóssil de 400 milhões de anos – ou seja, mais antigo que os dinossauros, que surgiram há menos de 250 milhões de anos. Trata-se de um molusco marinho, do gênero Actinopteria, batizado de Actinopteria grahni em homenagem a um professor sueco que viveu no Brasil e contribuiu com o estudo de fósseis na região.

Descoberta e pesquisa

A descoberta foi realizada pelo professor Elvio Pinto Bosetti e pelo doutorando em Geografia Kevin William Richter, ambos da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O estudo foi publicado no periódico científico Historical Biology, especializado em Paleobiologia, do Reino Unido. O fóssil que permitiu a identificação da nova espécie foi encontrado em um sítio paleontológico no Jardim Giana, conhecido como Curva 2 – um afloramento rico em fósseis já documentado desde os anos 80.

Os pesquisadores explicam que exemplares do Actinopteria langei – um molusco do mesmo gênero e com grande semelhança com a nova espécie – já haviam sido encontrados na região. Inicialmente, o objetivo era localizar mais exemplares desse molusco. “O Kevin decidiu que faria um artigo com esses bichos. Ele falou: vou voltar lá no campo onde vocês encontraram e vou procurar mais. Ele achou mais umas 20. Nesses 20, veio uma espécie que o especialista do Museu Nacional disse: olha, isso aqui é uma espécie nova. Encontrar a espécie é sorte, né? Nós mais ou menos sabemos onde procurar, mas encontrar um bicho raro é sorte”, afirma o professor Elvio.

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O professor complementa que a maioria dos fósseis é resultado de catástrofes, e que a região de Ponta Grossa foi fundo de mar, integrando a bacia do Paraná. Eram 1,6 milhão de quilômetros quadrados, da Argentina até o Tocantins – e, em Ponta Grossa, as camadas ficaram preservadas. “Você tem o período devoniano, de 400 milhões de anos, que é de um mar marcado por tempestades. Essas tempestades que fossilizam, matam a vida e fica o registro”, explica o professor Elvio.

Contexto paleontológico

Os primeiros registros de espécies Actinopteria na região foram feitos na década de 1960 pelo paleontólogo Setembrino Petri. Com a nova descoberta, o número de espécimes conhecidos aumenta, permitindo melhor compreensão da fauna e dos padrões de dispersão entre bacias sedimentares. “Do ponto de vista paleoecológico, o estudo permitiu interpretar que essas espécies viviam em ambientes marinhos rasos e parcialmente enterradas no substrato, apresentando adaptações relacionadas a esses paleoambientes”, explica Kevin.

Com o avanço da pesquisa, Elvio e Kevin decidiram reforçar a equipe. O professor Sandro Scheffer, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, especializado em taxonomia e classificação, integrou o trabalho. Já o professor Renato Ghilardi e seu aluno de pós-doutorado Victor Rodrigues Ribeiro, ambos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, contribuíram na parte de paleografia e distribuição das espécies na América do Sul. O fóssil, em breve, passará a integrar o acervo do Museu de Ciências Naturais (MCN) da UEPG.

Características da nova espécie

Os pesquisadores detectaram que se tratava de uma nova espécie a partir da análise e comparação entre as imagens das espécies Actinopteria langei e Actinopteria grahni. O contorno da concha, a morfologia da aurícula anterior, a expansão posterior e a ornamentação radial foram alguns dos pontos examinados que indicaram tratar-se de um animal nunca catalogado. “A bem desenvolvida aurícula lobular, embora ocupe uma pequena área da margem anterior, distingue essa espécie de todas outras espécies brasileiras, particularmente da Actinopteria lancei, na qual a aurícula é muito pequena”, explica um trecho do artigo.

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Próximos passos

De acordo com o professor Elvio, a próxima etapa da pesquisa é encontrar mais conchas do Actinopteria grahni. “Vamos voltar a esse local para encontrar mais espécies como essa. A ideia é que museus e pessoas que trabalham com isso, que tinham materiais como esse, reavaliem o que eles tinham e acreditavam ser outra espécie. Afinal, a ciência é uma constante reavaliação”, explica. Outra perspectiva é o interesse que a descoberta pode gerar para o setor produtivo. “Quanto mais eu conheço esses mares antigos, maior o potencial de encontrar gás natural. Eu barateio o custo de produção, porque onde tem matéria orgânica é um indício de onde pode ter óleo ou gás”, afirma.

Homenagem a professor falecido

O nome da espécie homenageia o professor sueco Carl Yngve Grahn, falecido em 2025, por suas contribuições na bioestatigrafia do Brasil – especialmente, na Escarpa Devoniana no Paraná. “Ele nos ajudou muito no laboratório e trabalhou 20 anos com a gente. Basicamente, foi ele quem nos colocou no meio internacional e decidimos fazer essa homenagem”, explica o professor Elvio. Grahn esteve na UEPG várias vezes, faleceu aos 80 anos na Espanha e morou por muito tempo no Brasil. “Era um sueco que não aguentava mais o frio”, brinca o professor.

Segundo a Sociedade Brasileira de Paleontologia, o Dr. Grahn formou-se em Geologia pela Universidade de Lund (1976), doutorou-se pela Universidade de Uppsala (1982) e obteve o título de Livre-Docente pela Universidade de Estocolmo (1993). Sua trajetória acadêmica e profissional incluiu passagens por instituições como a Ohio State University (EUA), o Serviço Geológico da Suécia, o Museu Sueco de História Natural, a Universidade de Rennes (França) e, no Brasil, atuou como pesquisador e professor visitante na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), consultor de longa data da Petrobras e no Grupo Palaios da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Sua expertise concentrou-se na área de Paleontologia Estratigráfica, com ênfase no estudo de quitinozoários, microfósseis de grande importância para a datação e correlação de rochas paleozoicas. Dr. Grahn foi pioneiro no refinamento dos zoneamentos bioestratigráficos das bacias sedimentares brasileiras (Solimões, Amazonas, Parnaíba, Paraná e Chaco-Paraná), estabelecendo padrões de correlação regional e internacional que até hoje são referência. Seus trabalhos foram cruciais para a datação de sequências silurianas e devonianas, a caracterização de eventos glaciais no Gondwana e o entendimento da evolução paleogeográfica da América do Sul. Sua produtividade ímpar reflete-se em artigos científicos, capítulos de livros, relatórios técnicos e a orientação de novas gerações de paleontólogos. Dr. Grahn era um pesquisador incansável, de mente brilhante e generosa, sempre disposto a colaborar e compartilhar conhecimento. Além de seu imenso contributo científico, era conhecido por seu caráter gentil, sua curiosidade intelectual incessante e seu profundo amor pela ciência.