Inquérito concluído e encaminhado ao Tribunal Marítimo
A Marinha do Brasil finalizou, em 23 de julho, o Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN) instaurado para apurar o naufrágio da lancha Lima de Abreu XV. O acidente ocorreu no dia 13 de fevereiro, no Encontro das Águas, em Manaus. Segundo a Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, o inquérito foi aberto para esclarecer as circunstâncias do acidente e eventuais responsabilidades.
Após a conclusão, o material foi enviado ao Tribunal Marítimo. Em nota, a Corte informou que recebeu o documento e que o caso será autuado como processo, seguindo os trâmites previstos na legislação e nas normas internas. A Marinha não divulgou quais foram as conclusões da investigação, que permanece sob sigilo.
O naufrágio no Encontro das Águas
A embarcação, operada pela empresa Lima de Abreu Navegações, deixou Manaus por volta das 12h30 com destino a Nova Olinda do Norte. Durante o trajeto, a lancha afundou nas proximidades do Encontro das Águas, região onde os rios Negro e Solimões se encontram. O acidente deixou três mortos, cinco desaparecidos e 71 sobreviventes resgatados.
Vídeos gravados por passageiros mostram pessoas, incluindo crianças, à deriva na água, muitas utilizando coletes salva-vidas ou apoiadas em botes enquanto aguardavam socorro. Parte dos passageiros foi socorrida por embarcações que passavam pela região. Um dos resgates mais emblemáticos foi o de um bebê prematuro de apenas cinco dias de vida, colocado dentro de um cooler para evitar o contato direto com a água. A mãe, que havia viajado a Manaus para dar à luz, também foi salva e ambos receberam atendimento médico.
Buscas foram suspensas em julho
No dia 8 de julho, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) suspendeu as buscas pelos cinco desaparecidos depois de quase cinco meses de operação. Segundo a corporação, a decisão ocorreu após o esgotamento das possibilidades de localizar as vítimas. As buscas, que começaram no dia do naufrágio, utilizaram drones, embarcações e equipamentos de sonar para leitura do leito do rio.
O CBMAM informou que permaneceria em sobreaviso e poderia retomar a operação caso surgissem novos indícios. Familiares de três desaparecidos solicitaram o boletim de ocorrência da corporação, registrado no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Segundo o CBMAM, o documento é o primeiro passo para dar entrada no pedido de morte presumida na Justiça.
Quem são as vítimas
Entre as vítimas fatais estão Samila de Souza, de 3 anos, Lara Bianca, de 22 anos, e Fernando Grandêz, de 39 anos. Os corpos de Samila e Lara foram encontrados horas após o naufrágio. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas, Samila chegou a ser levada ao Pronto-Socorro da Criança da Zona Leste, mas já estava sem vida. Ao g1, familiares contaram que a menina havia viajado a Manaus pela primeira vez e retornava para Urucurituba, onde a lancha faria uma parada.
Lara Bianca era natural de Nova Olinda do Norte e estudava odontologia em Manaus. Segundo amigos, ela estava prestes a concluir a graduação. O corpo dela foi resgatado e levado ao pelotão fluvial do Corpo de Bombeiros, no Porto de Manaus, e depois encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML). Já Fernando Grandêz, cantor gospel, teve o corpo encontrado três dias depois do acidente durante as buscas. Ele costumava participar de eventos religiosos na capital amazonense e expressava a fé nas redes sociais.
Piloto vira réu por homicídio qualificado
O piloto da lancha, Pedro José da Silva Gama, virou réu por homicídio qualificado após a Justiça do Amazonas aceitar, em 24 de abril, a denúncia do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM). A decisão é do juiz Fábio Lopes Alfaia, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus. Na ocasião, o magistrado afirmou que há prova da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria, o que justifica a abertura da ação penal.
Pedro se entregou à polícia na noite de 16 de março, após passar pouco mais de um mês foragido. Ele se apresentou na Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), onde permaneceu preso. No dia do acidente, o piloto chegou a ser detido e levado ao 1º Distrito Integrado de Polícia (DIP). Depois, com a confirmação das mortes, foi encaminhado à DEHS, mas acabou liberado após pagar fiança. No dia seguinte, 14 de fevereiro, a juíza Eliane Gurgel do Amaral Pinto decretou a prisão preventiva de Pedro, para garantir a ordem pública e assegurar a aplicação da lei penal.
Testemunha relatou alerta sobre banzeiro
Testemunhas relataram momentos de tensão antes do naufrágio. Uma passageira afirmou que chegou a alertar o piloto para reduzir a velocidade por causa do banzeiro, ondas fortes comuns na região do Encontro das Águas. Em um vídeo gravado enquanto estava à deriva, ela relatou que pediu ao condutor para "ir devagar". O pedido, porém, não evitou o acidente. As causas do naufrágio não foram divulgadas oficialmente e seguem sob análise no Tribunal Marítimo.



