A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, celebra três décadas de existência como um modelo inovador que integra proteção ambiental e permanência de populações tradicionais. Criada em 1990, foi a primeira unidade de conservação brasileira a adotar esse formato, que permite que moradores locais continuem em seus territórios enquanto participam ativamente da preservação. Com mais de 1 milhão de hectares de floresta de várzea, a reserva integra o Complexo de Conservação da Amazônia Central, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural, e também consta na lista de Áreas Úmidas de Importância Internacional da Convenção de Ramsar.
Origem e impacto do modelo
Idealizada pelo biólogo José Márcio Ayres na década de 1980, a RDS Mamirauá surgiu em um contexto em que a criação de áreas protegidas frequentemente exigia a remoção de comunidades. "Naquele momento, a criação de uma unidade de conservação ainda era frequentemente associada à retirada das populações que viviam no território. Mamirauá mostrou que era possível seguir outro caminho: reconhecer as comunidades tradicionais como protagonistas da conservação", afirma João Valsecchi do Amaral, diretor-geral do Instituto Mamirauá. Três décadas depois, o modelo se expandiu para 46 unidades de conservação em todo o Brasil.
Manejo do pirarucu e recuperação de estoques
Um dos resultados mais expressivos é o manejo participativo do pirarucu, que combina pesquisa científica e conhecimento dos pescadores. Antes de cada temporada, os comunitários contam os peixes para definir cotas de captura. A iniciativa elevou a população da espécie em mais de 600% nas áreas de manejo, e os exemplares capturados hoje medem, em média, 1,80 metro. A metodologia foi replicada em outras regiões da Amazônia e em países vizinhos.
Turismo comunitário e geração de renda
Além da pesca sustentável, a reserva desenvolveu o turismo de base comunitária e o manejo florestal. Ruth Martins, moradora nativa, trabalha na pousada Casa do Caboclo. "A pousada é uma fonte de renda familiar e comunitária que nos permite manter a subsistência. Eu quero continuar com a minha cultura, com o meu perfil de ser cabocla e indígena. Eu nasci aqui", destaca. A reserva abriga cerca de 260 mil pessoas em áreas protegidas no Amazonas, conforme o Censo.



