Cobra caninana é flagrada escalando vegetação em Ilhabela
Cobra caninana escala vegetação em Ilhabela

Uma visita inusitada chamou a atenção da bióloga Hew Barreto: uma grande serpente caninana (Spilotes pullatus) rastejava pelo telhado do VIVA Instituto Verde Azul, localizado no bairro dos Borrifos, em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. A organização é dedicada à conservação de cetáceos, grupo que inclui baleias, golfinhos, botos e toninhas.

Aparição em área de Mata Atlântica

A caninana é considerada uma das serpentes mais comuns do Brasil, com ampla distribuição territorial. Ela ocorre nos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal. Por isso, sua aparição em Ilhabela, região de Mata Atlântica, não é incomum, mas a cena impressiona. "Estávamos observando as aves e ela já estava dormindo no telhado, onde a vimos. Eu fiquei acompanhando o movimento dela até ela subir no ipê", relatou a bióloga.

A equipe do Terra da Gente visitou a sede do instituto e notou a grande variedade de pássaros no local. Segundo Hew, a diversidade é tão ampla que já foram registradas mais de 120 espécies de aves apenas na área da sede.

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Presença de aves atrai serpente

Como o bairro é bem preservado e cercado por mata virgem, a presença massiva de pássaros atrai a caninana, já que essas aves compõem sua dieta. A bióloga detalhou a reação ao se deparar com o animal: "É muito linda! Estamos mais acostumados a observar as aves daqui, e vê-la tão pertinho foi especial. Eu nunca tinha presenciado esse comportamento dela de se esticar para chegar ao galho, parecendo que o corpo não iria acabar nunca". Especialista em observação de cetáceos, ela ressaltou que também gosta de observar outros animais em seus habitats naturais e analisar seus comportamentos. "Sou bióloga justamente por conta disso!", contou.

Comportamento da caninana

Apesar do tamanho surpreendente, a caninana é uma espécie não peçonhenta e não possui veneno. O herpetólogo Willianilson Pessoa explicou que a cobra é predominantemente arborícola, com adaptações para viver, caçar e se abrigar nas copas das árvores. Para facilitar a locomoção na vegetação, a espécie desenvolveu um corpo longo e delgado, além de cauda preênsil, que funciona como um "quinto membro", permitindo que o animal agarre, segure e se pendure em galhos. A caninana também costuma saltar e fazer "pontes" entre as árvores.

O especialista apontou que a serpente pode descer ao solo e se adaptar muito bem a áreas urbanas. É comum encontrá-la em telhados, como mostra o vídeo. "É muito comum porque as pessoas têm árvores perto de casa, então o bicho vem pelos galhos e escala, vai no telhado e sobe nas telhas para comer rato, se esconder ou trocar de pele", explicou.

No ambiente natural e nas proximidades das casas, a caninana tem um papel ecológico fundamental: realiza o controle populacional de lagartos, roedores e aves, evitando superpopulação dessas espécies.

Hábitos diurnos e tamanho

As caninanas têm hábitos estritamente diurnos. "À noite não é um bicho que procura alimento ou que sai para caçar. Se uma caninana for encontrada andando ou se deslocando à noite, é porque algo a perturbou e ela teve que sair dali", afirmou o especialista. Em relação ao tamanho, a espécie é considerada de porte médio quando comparada a jiboias e sucuris, mas atinge facilmente 2,5 metros de comprimento. Willianilson relatou que há dimorfismo sexual no crescimento: "As fêmeas ficam maiores e mais grossas, enquanto os machos são mais esguios e finos".

Display defensivo

Por não ser peçonhenta, a caninana aposta em estratégias de defesa para parecer ameaçadora diante de predadores ou quando se sente encurralada. Segundo Willianilson Pessoa, o primeiro comportamento de alerta é vibrar rapidamente a ponta da cauda contra folhas secas e objetos, desviando a atenção da ameaça para a cauda. Se o risco persistir, a serpente assume uma postura agressiva: enrola parte do corpo, eleva a cabeça e realiza investidas rápidas na direção do invasor. "É um animal que dá muito bote. Ela fica em modo de defesa, meio enrodilhada, levanta a cabeça e vai para cima mesmo", afirmou o herpetólogo.

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Outra técnica característica é o achatamento lateral do corpo e a expansão da região do pescoço, o que faz a cobra parecer maior do que realmente é. "Ela faz o achatamento lateral e infla o papo, parecendo que está com um ovo na garganta", descreveu Willianilson. Apesar da postura intimidadora, a espécie não apresenta riscos graves aos seres humanos. Mesmo em caso de mordida, os ferimentos geralmente se limitam a cortes superficiais provocados pelos dentes.

Informações sobre a caninana

A coloração da caninana é preta e amarela, mas cada indivíduo possui um padrão de manchas único, que funciona como uma impressão digital. "Se analisarmos 100 caninanas, cada uma vai ter um padrão: umas são mais pretas do que amarelas, outras são mais amarelas do que pretas, algumas são mais amarelas da cabeça para o meio e o resto do corpo é negro, outras já são ao contrário", detalhou o herpetólogo.

  • Nome científico: Spilotes pullatus.
  • Distribuição: uma das serpentes mais comuns do Brasil. Ocorre nos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal, incluindo Ilhabela.
  • Habitat: vive em áreas naturais e zonas urbanas arborizadas. Frequentemente encontrada em árvores, telhados de casas e no solo.
  • Hábitos: espécie diurna. Registros noturnos geralmente indicam que o animal foi perturbado em seu descanso.
  • Alimentação: dieta baseada em aves, roedores, lagartos e, ocasionalmente, anfíbios. Desempenha papel vital no controle populacional.
  • Tamanho: pode atingir cerca de 2,5 metros de comprimento. Fêmeas costumam ser maiores e mais robustas que os machos.
  • Características físicas: serpente não peçonhenta (tipo áglifa). Coloração preta e amarela com padrões de manchas únicos para cada animal.

*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.