A jovem trans Guida Calvet, de 24 anos, ainda sente dores no braço e lida com traumas psicológicos após ser atacada por um homem com uma garrafa de cerveja quebrada. O crime ocorreu no último domingo (19), em Rosário, município a 69 km de São Luís, no Maranhão. A motivação ainda é investigada pela Polícia Civil, que trata o caso como tentativa de homicídio qualificado.
Ataque sem discussão prévia
Segundo Guida, ela estava em um bar com amigos quando foi chamada pelo suspeito, Alberto Felipe Caires Mendonça, de 20 anos, para conversar perto da praça. A vítima afirma que não houve discussão ou desentendimento. “Ele estava aparentemente normal, super amigável, sabe? A gente não teve nenhuma discussão, não teve briga”, relatou Guida em entrevista à TV Mirante. Quando se preparava para ir embora de bicicleta, foi surpreendida pelas agressões.
O suspeito usou uma garrafa de vidro quebrada para golpeá-la. Guida sofreu ferimentos na cabeça, no rosto e no tórax. Ela passou duas noites hospitalizada e registrou a ocorrência na delegacia. “O meu braço ainda não me deixa dormir direito. Ainda sinto dor constante”, contou.
Intervenção de terceiros evitou morte
De acordo com a polícia, o ataque só terminou após a intervenção de uma pessoa que presenciou o crime. O delegado regional de Rosário, Adriano Mendes, afirmou que a violência empregada colocou a vida da vítima em risco. “As investigações demonstram que o homicídio apenas não se consumou por intervenção de terceiros, porque o autor quebrou uma garrafa de vidro que estava em sua mão e golpeou a vítima em partes vitais do corpo, como a face, a cabeça e o tórax”, disse o delegado.
A prisão preventiva de Alberto Felipe foi solicitada pela Polícia Civil e autorizada pela Justiça. Ele foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanece à disposição da Justiça. A defesa do suspeito informou que não vai se manifestar sobre o caso.
Trauma e medo após o ataque
Guida relatou que sentiu medo de sair de casa e dificuldade para se olhar no espelho. “Eu estava com medo até de sair de casa. Eu não conseguia me olhar no espelho, sabe? Traumatizada. Vivi de novo, sabe? Sobrevivi. Deus me deu uma vida de novo. Eu espero que a Justiça seja feita e que ele pague pelo que fez”, disse a vítima.
A mãe de Guida, Marlene Esteves, contou que estava em casa, mas sentia que algo não estava bem. Ao chegar ao hospital, encontrou a filha ferida e a sala de atendimento com muito sangue. O apoio da mãe e dos amigos tem sido fundamental durante a recuperação.
Investigação sobre possível motivação transfóbica
Em depoimento, o suspeito alegou que houve provocações e que estava embriagado, agindo por impulso. No entanto, a Polícia Civil informou que, até o momento, não identificou elementos que indiquem que o crime tenha sido motivado pela identidade de gênero de Guida.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão (OAB-MA), Erik Moraes, defendeu que uma possível motivação transfóbica seja investigada. “É muito importante a investigação sobre a possibilidade de transfobia, pois ela altera completamente o enquadramento penal, as regras processuais e o endurecimento da pena”, afirmou.
Segundo a Associação Maranhense de Travestis e Transsexuais, dez agressões contra pessoas trans foram registradas no estado entre dezembro de 2025 e junho de 2026. A presidente da associação, Andressa Sheron, destacou: “A transfobia é algo estrutural, assim como o racismo, né?”. Ela também defendeu o enfrentamento à violência e às violações de direitos da população trans.
A Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular informou que desenvolve projetos voltados à promoção dos direitos da população LGBTQIA+.



