A bandeira do Amazonas mudou. O símbolo oficial do Estado agora tem 62 estrelas, uma para cada município amazonense, em lugar das 25 do desenho anterior. A alteração ocorreu por meio de Proposta de Emenda Constitucional (PEC) apresentada pelo governo do Estado e aprovada pela Assembleia Legislativa em caráter de urgência.
Correção de defasagem histórica
Para o governo, a alteração corrige uma 'defasagem histórica': “Desde a criação da bandeira, o Amazonas passou por mudanças em sua divisão territorial, com a criação de novos municípios. A PEC estabelece um mecanismo automático para que, caso haja alterações futuras, a bandeira permaneça sempre atualizada, sem necessidade de nova mudança constitucional”, disse o governador Roberto Cidade (União Brasil) ao Estadão. De acordo com ele, não há previsão para criar novos municípios no Amazonas. O governo não informou qual serão os custos para a atualização de bandeiras e documentos usados pelo Estado.
O que representava a antiga bandeira?
Conforme os registros oficiais, a antiga composição não representava apenas a divisão territorial do Amazonas em 1897, mas estabelecia uma ligação direta entre as 25 estrelas e o embarque das forças militares amazonenses enviadas para combater em Canudos, no sertão da Bahia. A Guerra dos Canudos surgiu por causa de um movimento da primeira metade da década de 1890, com a pregação do beato Antônio Conselheiro, um líder local que era seguido pelas populações do sertão baiano como uma espécie de messias. Um forte aparato militar foi enviado para reprimir o movimento. Esse episódio histórico teve cobertura do Estadão.
A Lei 1.513/1982 determinava que as estrelas simbolizassem os municípios existentes em 4 de agosto de 1897 e marcassem “o momento histórico do embarque das Forças Militares do Amazonas para lutar em Canudos”.
Críticas e debates
Para os críticos, a alteração ocorrida é uma oportunidade perdida de perguntar à população se o principal símbolo amazonense deveria continuar associado a uma expedição militar ocorrida há quase 130 anos ou passar a representar a floresta, as águas, os povos ancestrais e a diversidade do território. “Prefiro uma bandeira amazônica que celebre a vida, a esperança e o respeito à nossa cultura ancestral neste chão nosso de água e floresta”, afirma a pesquisadora e escritora Etelvina Garcia, de 85 anos.
O poeta, compositor e dramaturgo Aldísio Filgueiras afirma ter sentido falta de debates públicos e pesquisas históricas mais amplas. Filgueiras, membro da Academia Amazonense de Letras, recorda que a semelhança entre as bandeiras do Amazonas e dos Estados Unidos já instigava discussões em Manaus na década de 1970. Segundo ele, em uma partida internacional de futebol no antigo Estádio Vivaldo Lima, um narrador de televisão chegou a questionar por que uma bandeira americana estava hasteada ao lado da brasileira. Tratava-se, na verdade, do símbolo amazonense.
Na época, acrescenta o escritor, jornalistas, artistas e intelectuais defenderam reformulação mais ampla. O poeta Luiz Bacellar foi um dos que apresentaram uma proposta com elementos relacionados à floresta e ao Rio Amazonas durante o governo Danilo Areosa (1967-1971). O modelo, porém, não foi adotado.
Novo desenho e significado
No novo desenho, Manaus permanece no centro da composição, representada por uma estrela maior. Os outros 61 municípios aparecem em estrelas de segunda grandeza, organizadas em sete fileiras. A norma entrou em vigor na data de sua publicação. O desenho conserva as faixas horizontais vermelha e branca, o retângulo azul e a estrutura visual que frequentemente leva a bandeira amazonense a ser comparada à dos Estados Unidos.
Maior Estado do Brasil
Embora seja o maior Estado brasileiro em extensão, com localidades separadas por longas viagens fluviais e aéreas, o Amazonas tem somente 62 municípios. No total, são 4,32 milhões de habitantes. Para Filgueiras, essa organização reflete a concentração política, administrativa e populacional em Manaus e o isolamento do interior. “Em muitos casos, são necessários dois ou três dias de barco para chegar a uma cidade, enquanto as passagens aéreas são caríssimas”, diz. Para o governador, a atual divisão está relacionada às características geográficas e econômicas da região. “A criação de municípios depende de critérios técnicos, legais e de viabilidade econômica”, afirmou Cidade.



