Cena emblemática de 'Manhãs de Setembro' gera comoção
Eu já havia me emocionado com a cena entre Otoniel (Tony Ramos) e Adriana (Letícia Colin) em 'Manhãs de Setembro', mas a mensagem do meu amigo Marcos me tocou ainda mais. Por áudio de WhatsApp, ele contou que chorou assistindo à sequência em que a neta, mesmo ferida, tenta mostrar ao avô que ele precisa evoluir e amar o neto Maurício (João Victor Gonçalves) do jeito que ele é. Na trama, o jovem ainda se descobre gay, algo que o avô tenta reprimir. A novela, exibida no horário nobre da Globo, atinge cerca de 30 milhões de telespectadores por capítulo, segundo dados do Kantar Ibope Media.
A força de um personagem complexo
Ter um personagem genuinamente bom e, ao mesmo tempo, homofóbico numa novela das nove talvez seja uma das formas mais potentes de provocar reflexão sobre a violência contra pessoas LGBTQIA+. Otoniel não é um vilão. É um homem honesto, trabalhador, pai e avô amoroso, que coloca a família acima de tudo. Mas também foi preconceituoso com o neto: ao encontrar na mochila dele um livro sobre dois rapazes que se gostavam, ridicularizou o menino ao vê-lo cozinhando e foi cruel ao flagrá-lo usando uma camiseta da irmã. Essa dualidade obriga o público a reconhecer que pessoas boas também podem causar sofrimento profundo.
Uma história real: Marcos e o tio Osvaldo
Foi impossível para Marcos não pensar no seu tio Osvaldo. É com ele que meu amigo guarda as lembranças mais felizes da infância no interior. Como perdeu o pai cedo, foi Osvaldo quem ocupou esse papel. Os passeios na carroceria da caminhonete (naquele tempo podia), o vento no rosto, as cavalgadas, a horta, o leite tirado da vaca. Muito do grande homem que Marcos se tornaria começou ali. A adolescência, porém, mudou essa convivência. Quando percebeu que gostava de meninos, meu amigo também percebeu que não poderia mais ser, diante do tio, aquele Marquinhos de antes.
Ele saiu da cidade para fazer faculdade, construiu a própria vida e nunca deixou de voltar nos feriados e nas férias. Gostava de encontrar o tio nos churrascos e nos almoços de domingo. Mas bastavam algumas cervejas para começarem as piadas. Eram comentários que talvez muitos ali encarassem como brincadeiras. Para Marcos, eram um lembrete de que havia uma parte dele que não cabia naquela mesa. Aos poucos, foi se afastando. Não por falta de amor, mas porque precisava de um lugar onde pudesse existir por inteiro.
Violência sutil e seus efeitos
Campanhas contra a violência LGBTQIA+ continuam indispensáveis. Mas uma novela talvez consiga chegar onde um slogan não chega: dentro da sala de casa, mostrando que a violência nem sempre tem a cara do ódio. Às vezes ela tem o rosto de um avô carinhoso que não percebe que, toda vez que rejeita o neto, está empurrando para longe justamente a pessoa que mais queria manter por perto. 'É difícil', desabafou Otoniel na novela, chorando. É mesmo. Mas é muito mais difícil para Maurício, que ainda está descobrindo quem é e, ao mesmo tempo, tenta não perder o amor do avô.
Foi complexo para Marcos também. Apesar da distância, ele ainda procura saber do tio Osvaldo. Guarda carinho por ele e até tenta compreender os limites de uma geração que teve menos acesso à informação. Isso não apaga a dor. Nem desfaz as lacunas que o preconceito criou. No fundo, Marcos queria apenas poder voltar a ser, ao lado do tio, aquele Marquinhos livre da infância. O menino que corria pelo sítio e se sentia amado sem ressalvas.
O papel da teledramaturgia na transformação social
Gabriela Germano, editora-assistente que atua na área de cultura e entretenimento desde 2002 — pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp —, ressalta que a novela consegue humanizar questões complexas. Ao mostrar um avô que ama, mas erra, a trama convida o espectador a refletir sobre seus próprios preconceitos. Dados da pesquisa 'Violência contra LGBTQIA+ no Brasil', divulgada pelo Grupo Gay da Bahia em 2023, apontam que 273 pessoas LGBTQIA+ foram mortas no país naquele ano, vítimas de violência motivada por orientação sexual ou identidade de gênero. Embora a novela não trate diretamente de assassinatos, ela aborda a raiz do problema: a rejeição familiar que muitas vezes leva à exclusão e ao sofrimento.
Em tempos de polarização, a teledramaturgia pode ser uma ferramenta de empatia. 'Manhãs de Setembro' não propõe respostas fáceis, mas expõe a complexidade das relações humanas. E, ao fazer isso, talvez ajude a encurtar a distância entre avós e netos, tios e sobrinhos, que tantos brasileiros conhecem na própria pele.



