A Unesco iniciou o desenvolvimento de uma 'estrutura ética universal' para a neurotecnologia, que combina computadores ao cérebro e utiliza inteligência artificial (IA) para analisar a atividade neural. A decisão foi tomada durante uma conferência em Paris na quinta-feira (13), reunindo líderes científicos e políticos.
Segundo Mariagrazia Squicciarini, principal autora de um relatório da Unesco, a adição de IA à neurotecnologia potencializa seus efeitos. 'Quando você acrescenta IA, está colocando neurotecnologia com esteroides', afirmou. O relatório aponta que os investimentos privados em empresas do setor cresceram mais de 20 vezes desde 2010, atingindo US$ 7,3 bilhões em 2020, e o mercado de dispositivos neurotecnológicos deve ultrapassar US$ 24 bilhões até 2027.
Gabriela Ramos, diretora-geral assistente da Unesco para ciências sociais e humanas, alertou para os riscos: 'A promessa poderá ter um alto custo em termos de direitos humanos e liberdades fundamentais, se houver abuso. A neurotecnologia pode afetar nossa identidade, autonomia, privacidade, sentimentos, comportamentos e bem-estar geral'. Ela destacou que avanços considerados ficção científica há alguns anos já estão mudando a essência do que significa ser humano.
O neurobiólogo Rafael Yuste, diretor do Centro de Neurotecnologia da Universidade Columbia, defendeu a regulamentação internacional para proteger a privacidade mental. Ele mencionou quatro estudos recentes que decodificaram fala e imagens de cérebros humanos usando dispositivos não invasivos e modelos avançados de IA. 'Os novos algoritmos permitirão decodificar informações altamente confidenciais, tornando ainda mais urgente a proteção da privacidade mental', disse Yuste.
Yuste também criticou a prática de empresas de neurotecnologia nos Estados Unidos e Canadá, que assumem a propriedade total dos dados neurais dos clientes em contratos. 'Precisamos proteger a propriedade mental, caso contrário as empresas começarão a armazenar dados cerebrais. Elas podem não decodificá-los hoje, mas a IA permitirá que os decodifiquem amanhã', afirmou.
Apesar das preocupações, Squicciarini ressaltou que a Unesco não é contra a neurotecnologia nem pede moratória na pesquisa, devido ao seu potencial para reduzir mortes e incapacidades causadas por distúrbios neurológicos. A organização busca uma abordagem equilibrada que promova a inovação enquanto protege os direitos humanos.



