Terra de Minas recria Chica da Silva com IA 230 anos após morte
Terra de Minas recria Chica da Silva com IA 230 anos após morte

O programa Terra de Minas, da TV Globo, exibiu no sábado (11) uma homenagem a Chica da Silva, 230 anos após sua morte. Utilizando inteligência artificial (IA) e pesquisas históricas, a produção recriou visualmente a personagem, buscando desmistificar a imagem sensual e manipuladora consolidada por romances, novelas e filmes. As ilustrações foram baseadas em documentos da época e orientações de especialistas, sem a pretensão de representar a aparência real.

Reconstrução visual com inteligência artificial

Como não existem retratos fiéis de Chica da Silva, o departamento de arte da TV Globo em Minas Gerais produziu reconstruções artísticas com auxílio de IA. As imagens de Chica, de seu companheiro João Fernandes de Oliveira e dos filhos do casal foram geradas a partir de referências históricas reunidas durante a apuração. A equipe utilizou informações do livro "Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito", da historiadora Júnia Ferreira Furtado (UFMG), além de orientações da professora Carolina Bicalho (UEMG) e registros iconográficos do "Livro de Costumes", de Carlos Julião (século XVIII).

O design gráfico Igor Paiva, responsável pelas orientações para a IA, destacou a dificuldade de evitar a sexualização e o padrão europeu. "Muitas vezes ela criava roupas e cenários parecidos com a nobreza europeia, com vestidos muito armados, ambientes luxuosos demais e pouca relação com o Brasil colonial", afirmou.

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Chica jovem e escravizada

A reconstrução da juventude de Chica, quando ainda era escravizada, considerou informações sobre mulheres da Costa da Mina, origem de sua mãe. Segundo a historiadora Júnia Furtado, "portugueses achavam as mulheres originárias da Costa da Mina muito bonitas, por serem altas, magras, por terem dentes muito brancos, e terem um contraste, que era uma coisa que eles valorizavam". Documentos da época identificavam a Chica escravizada como "Francisca Parda", designação para mulatos de pele mais clara. As roupas coloridas e estampadas seguiram referências do "Livro de Costumes".

Chica adulta e a elite colonial

Na fase adulta, quando vivia com João Fernandes em Diamantina, Chica passou a ser carregada em cadeirinhas, não andava a pé e não amamentava os filhos. A reconstrução refletiu a mudança corporal – corpo mais robusto, sinal de riqueza. As ilustrações buscaram retratar o vestuário luxuoso descrito nas fontes: tecidos estampados e vibrantes, joias, patuás. Conforme Furtado, "Chica ostentava vestuário rico e colorido, que incluía meias brancas e anáguas da mesma cor, sapatos de seda com fivelas de prata ou pedras coloridas". A saia era de cetim ou outros tecidos, sempre vibrante, listrada ou florida, combinada com blusas de chita ou algodão em tons de verde, vermelho ou branco. Acessórios incluíam chapéu de copa alta, brincos de ouro, colares, patuás e um leque de plumas brancas.

As escolhas de figurino e joias foram orientadas por Carolina Bicalho, que contribuiu com referências sobre as "joias de crioula" – conjuntos de correntes e pingentes usados como símbolo de riqueza e poder após a alforria.

Chica sem peruca

A equipe optou por não representar Chica com peruca, ao contrário de pinturas em sua casa e do filme "Xica Da Silva" (1976). A decisão baseou-se nas pesquisas de Júnia Furtado, que aponta que a informação sobre a cabeleira raspada e peruca, difundida por Joaquim Felício dos Santos, não tem respaldo nos inventários de mulheres livres e forras do Arraial do Tijuco. Segundo a pesquisadora, perucas eram predominantemente masculinas na época.

João Fernandes de Oliveira

As imagens de João Fernandes seguiram descrições da indumentária da elite portuguesa do século XVIII: casacas, tecidos nobres, chapéu, insígnias da Ordem de Cristo. Conforme Furtado, "o jovem desembargador deveria impressionar os moradores e impor o respeito que exigia sua presença". Trajava ceroula, camisa branca de linho com babados, calção ou calça, meias finas de seda, casaca de droguete preta, vermelha ou azul, ou fraque de baeta, veludo ou seda. Adereços incluíam pescoinho, lenço de seda, cabeleira, chapéu com pluma, cruz da Ordem de Cristo, sapatos com fivela de prata ou ouro, bengala de tartaruga, anéis de pedras preciosas, faca e espadachim com cabos de prata e pistolas.

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