Em artigo publicado nesta quinta-feira, o professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado, defende que o Brasil deve priorizar a soberania em inteligência artificial (IA) como questão central de política tecnológica, acima mesmo da regulação do setor. Para ele, o país precisa deixar de ser mero usuário de modelos estrangeiros e investir em infraestrutura própria.
Dependência externa e riscos geopolíticos
Ortellado destaca que a OpenAI, criadora do ChatGPT, ofereceu 5% de participação ao governo americano, revelando a influência política direta sobre o desenvolvimento da IA. Incidentes como restrições impostas pela Anthropic e falhas da OpenAI evidenciam os riscos de depender de tecnologias controladas por outros países.
“A soberania em IA não é apenas uma questão de desenvolvimento econômico, mas de segurança nacional e autonomia estratégica”, afirma o professor. Ele ressalta que o Brasil precisa tratar a soberania tecnológica como prioridade de Estado, utilizando sua diplomacia para equilibrar relações com Estados Unidos e China.
Investimento em infraestrutura própria
Para reduzir a dependência, o artigo sugere investimentos em centros de processamento de dados, desenvolvimento de modelos de linguagem em português e formação de especialistas. Segundo Ortellado, a regulação, embora importante, não pode ser o único foco: “Sem capacidade própria, qualquer regulação será ineficaz ou contraproducente”.
O professor também critica a postura atual do Brasil, que se limita a consumir tecnologia importada. Ele cita dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que indicam que mais de 90% dos sistemas de IA usados no país são desenvolvidos no exterior.
Diplomacia como ferramenta
Ortellado defende que o Brasil use sua posição internacional para negociar acordos de transferência de tecnologia e evitar alinhamentos automáticos. “Precisamos de uma política externa ativa que nos permita acessar o que há de melhor, sem nos tornarmos reféns de nenhum bloco”, conclui.



