IA generativa está homogeneizando a linguagem humana, alertam estudos
IA generativa homogeneiza linguagem humana, dizem estudos

O uso crescente da inteligência artificial generativa está alterando não apenas a escrita, mas também a fala e o pensamento humanos, segundo estudos recentes. Pesquisadores do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, na Alemanha, e da Universidade do Sul da Califórnia (USC) identificaram que a IA está homogeneizando o vocabulário, reduzindo a diversidade cognitiva e impondo uma dominação cultural ocidental.

Palavras recorrentes e empobrecimento da linguagem

Hiromu Yakura, do Instituto Max Planck, liderou um estudo que analisou mais de 360 mil vídeos do YouTube e 771 mil episódios de podcast, comparando o período antes e depois do lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022. Os pesquisadores identificaram a recorrência de um conjunto de palavras que se tornaram comuns após a popularização da IA. Termos como "abranger", "robusto", "alavancar", "nuances", "desvendar" e expressões como "em última análise", "de maneira geral", "no mundo acelerado de hoje", "desempenha um papel fundamental", "em suma" e "diante desse cenário" são agora vistos como marcadores de texto gerado por IA.

"A influência mensurável sobre a fala espontânea sugere que os seres humanos internalizam as escolhas lexicais dos grandes modelos de linguagem", afirmam os cientistas no estudo. Segundo eles, máquinas treinadas com conteúdo humano agora retroalimentam suas próprias características na linguagem humana, integrando-se a processos contínuos da evolução cultural.

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Homogeneização e dominação cultural

O estudo do Max Planck alerta para o risco de homogeneização linguística. "Esse acoplamento suscita preocupações quanto à homogeneização linguística e ao potencial de influência cultural latente, em larga escala, concentrado nas mãos de um pequeno número de grandes fornecedores de IA", concluem os pesquisadores.

Outra pesquisa, liderada por Zhivar Sourati, da USC, indicou que a IA generativa não apenas padroniza vocabulário, mas também tende a reforçar estilos de raciocínio dominantes e marginalizar vozes e estratégias alternativas de pensamento. Os autores relacionam esse efeito ao próprio desenho e uso massivo dos modelos, que espelham os padrões dominantes no conteúdo de treinamento e amplificam a convergência à medida que mais pessoas dependem dos mesmos sistemas.

"Sem mecanismos que mitiguem esse processo, essa homogeneização pode achatar a diversidade cognitiva que sustenta a inteligência coletiva e a capacidade de adaptação", alertam os pesquisadores.

Impacto no Sul Global e diversidade cultural

Um terceiro estudo, liderado por Yalda Daryani, também da USC, sugere que a IA reflete de forma desproporcional um perfil demográfico restrito: predominantemente ocidental, liberal, de alta renda, altamente escolarizado, masculino e oriundo de países de língua inglesa. Isso marginaliza não apenas culturas não ocidentais, mas também grupos diversos dentro das próprias sociedades, como idosos, comunidades religiosas e populações minoritárias.

Os pesquisadores propõem políticas públicas para garantir diversidade cultural em todas as etapas do desenvolvimento da tecnologia. "Sem esse esforço, a IA corre o risco de corroer a pluralidade cultural da humanidade, substituindo tradições diversas por normas homogeneizadas moldadas por um subconjunto restrito da população mundial", conclui Daryani.

Dependência tecnológica e relações interpessoais

Além da homogeneização linguística, o uso excessivo de IA generativa está afetando relações interpessoais. Cada vez mais pessoas reprovam publicamente o uso de IA em produções textuais, questionando as habilidades de quem se vale dela. Isso gera um ciclo de dependência: quanto mais se usa IA, menos confiança o autor tem em sua própria capacidade produtiva.

A proliferação da IA em plataformas como ChatGPT, Claude, Gemini, além de redes sociais, e-mail e sistemas corporativos, torna difícil fugir de sua influência. Estudos apontam que mesmo pessoas que não usam essa tecnologia podem ser impactadas, como um "fumo passivo" da IA.

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O jeito de escrever da IA

A IA generativa, por ser uma máquina estatística, fica "viciada" em palavras e expressões presentes em textos considerados bons. O abuso desses recursos acaba piorando as produções, tornando-as prolixas e empobrecidas. A combinação de estilo excessivamente uniforme, palavras em série e pouca variação sintática denuncia a origem artificial.

Muitas pessoas estão evitando o uso de travessão e dois pontos, outros recursos abusados pela IA, com medo de serem confundidas com robôs. No entanto, é importante notar que a evolução da linguagem é multifatorial, com influência de mídias, modismos, contextos históricos e culturais. A IA desempenha um papel intenso, mas não está sozinha nesse processo.

Soluções e conscientização

Os pesquisadores defendem que a sociedade busque soluções para o problema. A IA generativa é poderosa e deve ser aproveitada como recurso para melhorar o trabalho, mas é necessário desenvolver uma consciência em seu uso que hoje raramente é vista. A tecnologia deve ampliar horizontes, não diminuir o brilho da linguagem humana.