Sequência sísmica de 1986 marcou a sismologia brasileira
Quando um tremor de magnitude 1.7 foi registrado em João Câmara às 20h26, no dia 19 de fevereiro deste ano, poucos minutos bastaram para que a informação chegasse aos computadores do Laboratório Sismológico da UFRN, em Natal. O sinal percorreu a rede de dezenas de estações espalhadas pelo Nordeste, foi processado por sistemas digitais, revisado por especialistas e transformado em boletim, que pode ser acessado pela Defesa Civil e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Hoje, esse processo é quase automático. Há 40 anos, quando o abalo de 5.1, o maior da história do Rio Grande do Norte, atingiu João Câmara, nada disso existia.
Na época, os registros eram feitos em equipamentos analógicos, impressos em papel fumê. A equipe era formada por apenas três professores. Não havia estações móveis para instalar em áreas afetadas nem uma rede nacional de monitoramento sísmico. Foi justamente aquela sequência de terremotos iniciada em 1986 que mudou esse cenário e transformou a sismologia brasileira. "Eu diria que houve um antes e um depois de João Câmara na sismologia no Brasil. A partir disso, núcleos e grupos de sismologia se consolidaram, houve investimento e capacitação", destaca Aderson Nascimento, coordenador do LabSis.
Antes de João Câmara: estrutura limitada e poucos estudos
Quando os primeiros tremores começaram a ser sentidos em junho de 1986, o grupo de sismologia da UFRN já estudava a atividade sísmica da região desde o início da década. Embora o Brasil já registrasse terremotos, poucos eram estudados de forma contínua. Também eram raros os eventos que provocavam impactos tão significativos sobre uma população urbana. O professor aposentado Joaquim Mendes Ferreira havia visitado João Câmara pela primeira vez em 1983, após um tremor registrado na região. "À época, o prefeito Ribamar já tinha essa preocupação e me convidou para ir lá", conta. Três anos depois, em 1986, voltou acompanhado dos professores João da Mata e Mário Takeya e do então bolsista Francisco Hilário para acompanhar uma sequência que ainda parecia pequena. "Nós fomos para o campo logo no começo de junho. Mas a atividade foi aumentando, as magnitudes começaram a crescer e percebemos que estávamos diante de algo completamente diferente", lembra.
Até então, explica Joaquim, a estrutura disponível era bastante limitada. "Não tínhamos equipamentos de campo. Existia apenas uma estação permanente e o trabalho era basicamente visitar as áreas, levantar informações e enviar os registros para centros de pesquisa no exterior", relembra. Enquanto os abalos se intensificavam, a pequena equipe da universidade passou a acompanhar diariamente a evolução da crise. O desafio, porém, ia muito além da ciência. "O que abalou mesmo as pessoas, não foi apenas o dano físico. Eram os tremores e depois as réplicas, uma atrás da outra. Psicologicamente aquilo era devastador", recorda Joaquim. O então prefeito Ribamar Leite conta que se interessou pelo tema quando ainda estava na faculdade de Ciências e, por isso, havia convidado o professor Joaquim Ferreira para uma visita na cidade. "Não tinha previsibilidade. Na época existia a tese na cidade de que com uma sequência de centenas de abalos menores, um grande viria. Outra tese dizia que com a dispersão da energia nos menores, não teria força para um abalo grande, mas nada comprovado cientificamente", diz.
Cidade virou laboratório natural para cientistas do mundo
À medida que os terremotos chamavam atenção do país, João Câmara passou a atrair especialistas de diversas partes do mundo. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB), além de cientistas do Japão, Estados Unidos, Inglaterra, Grécia e Venezuela desembarcaram no município para acompanhar um fenômeno inédito no Brasil. "O presidente José Sarney determinou que viessem equipes técnicas. Vieram para João Câmara cientistas do mundo inteiro, cientistas de ponta", lembra o ex-prefeito José Ribamar Leite. A razão para tamanho interesse era simples. Nunca o país havia acompanhado uma sequência sísmica daquela dimensão.
Mais do que registrar um terremoto de magnitude 5.1, os pesquisadores passaram a observar uma atividade que se estenderia por mais de uma década e ultrapassaria a marca de 50 mil tremores registrados. "A evolução sísmica de João Câmara abriu novos caminhos de conhecimento nessa área e ajudou a formar muitos pesquisadores, além de atrair parcerias internacionais com a UFRN", resume o especialista em sismologia Eduardo Alexandre. Foi nesse período que a Falha de Samambaia começou a revelar aos pesquisadores características que ainda eram desconhecidas. "O monitoramento mostrou que se tratava de uma estrutura com cerca de 38 quilômetros de extensão e permitiu mapear com precisão áreas que antes não eram conhecidas", explica o coordenador do LabSis, Aderson Nascimento.
Depois de João Câmara: legado em tecnologia e capacitação
Quatro décadas depois, Joaquim resume a importância daquele período em uma frase que se tornou conhecida entre pesquisadores da área. "A história é dividida entre antes e depois de Cristo. A sismologia no Brasil, de certa maneira, também é dividida entre antes de JC e depois de JC". Segundo ele, foi a partir da experiência vivida em João Câmara que a universidade passou a receber recursos para comprar equipamentos, formar técnicos, ampliar pesquisas e consolidar uma estrutura permanente de monitoramento. "A sismologia na UFRN, o que ela é hoje, deve-se em grande parte aos tremores de João Câmara. Hoje existe um prédio próprio, equipamentos modernos, técnicos especializados. Tudo isso nasceu daquele período", afirma o técnico. O coordenador do laboratório, Aderson Nascimento, endossa essa tese: "João Câmara foi uma grande escola para a sismologia brasileira."
A transformação também pode ser medida pela tecnologia. Em 1986, os sismógrafos registravam os tremores em rolos de papel, que precisavam ser analisados manualmente pelos pesquisadores. Hoje, as estações transmitem dados em tempo real para um data center da UFRN. A rede operada pelo LabSis conta atualmente com 55 estações espalhadas pelo país, das quais 32 funcionam de forma permanente, com envio contínuo de informações. Grande parte do processamento é feita automaticamente por algoritmos capazes de identificar terremotos em poucos segundos. Depois, analistas revisam os resultados antes da divulgação dos boletins. "Hoje conseguimos emitir boletins, orientar a Defesa Civil e fornecer informações para a imprensa, a indústria e outros órgãos públicos. O poder de processamento e comunicação é completamente diferente do que existia há quarenta anos", explica Aderson.
Ciência para proteger pessoas: monitoramento e prevenção
Se em 1986 a principal missão dos pesquisadores era entender o que estava acontecendo, hoje o foco também inclui preparar a sociedade para conviver com esse tipo de fenômeno. Além do monitoramento contínuo, o laboratório atua junto às Defesas Civis, produz materiais educativos, faz palestras em escolas e orienta gestores públicos sobre riscos geológicos e protocolos de segurança. Para Aderson, esse talvez seja o maior legado deixado por João Câmara. "O terremoto fez surgir uma preocupação com preparação, prevenção e comunicação com a população". Mesmo com toda a evolução tecnológica, uma limitação permanece. Ainda não existe tecnologia capaz de prever quando ocorrerá um terremoto. Por isso, segundo o pesquisador, investir em monitoramento continua sendo o caminho mais eficiente. "A gente só protege aquilo que conhece. E, para conhecer, é preciso monitorar".



