Carros elétricos pegam menos fogo que os a combustão, dizem especialistas
Elétricos pegam menos fogo que combustão, apontam dados

Os incêndios em carros elétricos costumam ganhar enorme repercussão, assim como a queda de helicóptero que destruiu 20 carros da BYD. Vídeos de baterias em chamas, operações demoradas dos bombeiros e relatos de fuga térmica ajudam a alimentar a percepção de que a eletrificação teria criado um novo risco para a indústria automotiva. Mas o que os dados realmente mostram sobre esses casos?

Para responder a essa pergunta, o Jornal do Carro ouviu especialistas em engenharia automotiva, análise de falhas e eletromobilidade. A conclusão é direta: carros elétricos não são imunes a incêndios, mas os registros disponíveis indicam que essas ocorrências são significativamente menos frequentes do que nos veículos a combustão. Ao mesmo tempo, quando acontecem, costumam ser mais complexas e ainda desafiam pesquisadores, fabricantes e equipes de emergência.

O que dizem os números

Segundo Erbis Biscarri, engenheiro e perito judicial no Brasil, especializado em análise de falhas e incêndios em veículos, levantamentos internacionais apontam cerca de 25 incêndios para cada 100 mil veículos elétricos em circulação. Entre os automóveis movidos a combustão, esse número pode chegar a aproximadamente 1.500 casos para o mesmo universo de veículos. "Quando você olha proporcionalmente, o veículo a combustão ainda pega fogo muito mais", afirma o engenheiro.

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Mesmo em cenários mais conservadores, como o da Noruega — país que possui uma das maiores participações de veículos elétricos do mundo — a incidência continua menor. Ou seja, os dados disponíveis apontam que o risco existe, mas ocorre com frequência significativamente inferior à observada nos veículos convencionais.

Isso não significa, porém, que o tema esteja totalmente resolvido. Segundo Biscarri, ainda faltam critérios globais padronizados para classificar e comparar incêndios envolvendo diferentes tecnologias, o que dificulta análises mais precisas entre países e mercados.

Complexidade gera repercussão

Ao mesmo tempo, os especialistas destacam que a complexidade dos incêndios em elétricos ajuda a explicar parte da repercussão. Diferentemente de um incêndio convencional, a fuga térmica pode ser desencadeada por fatores elétricos, mecânicos ou químicos e, uma vez iniciada, tende a se propagar rapidamente entre as células da bateria. "É uma reação que se autoalimenta. Quando começa, o controle fica muito mais difícil", explica Eduardo Zambelli, diretor de Eletromobilidade da Associação de Engenharia Automotiva (AEA).

Por outro lado, os próprios engenheiros afirmam que a evolução tecnológica tem reduzido progressivamente os riscos. Sistemas de monitoramento mais sofisticados, melhorias na construção das baterias e novas estratégias de proteção tornaram os veículos atuais mais seguros do que os primeiros modelos eletrificados. "Os sistemas de controle evoluíram muito. Hoje você tem monitoramento constante e mecanismos de proteção que evitam que o problema avance", afirma Zambelli.

Para Biscarri, os casos mais graves continuam normalmente associados a fatores externos, como danos estruturais após colisões, intervenções inadequadas ou utilização fora das condições previstas pelos fabricantes. A tendência, segundo os especialistas, é que a eletrificação avance acompanhada de regras mais rígidas, novos protocolos de segurança e critérios internacionais mais claros para análise desses eventos. "Não é uma tecnologia mais perigosa. É uma tecnologia diferente, que exige entendimento", conclui Biscarri.

A bateria muda tudo

Ao contrário do que o senso comum sugere, o carro elétrico não é um sistema isolado de riscos. Ele continua sujeito a causas tradicionais de incêndio: curto-circuitos em sistemas auxiliares, falhas mecânicas, vandalismo ou até fontes externas de fogo. A diferença está no componente central do sistema — a bateria de alta tensão. "Ele continua sendo um carro. Pode pegar fogo pelos mesmos motivos de um veículo a combustão. Mas tem uma particularidade: uma bateria muito grande, com enorme quantidade de energia concentrada", explica Biscarri.

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Essa bateria, instalada geralmente no assoalho, é composta por centenas ou até milhares de células. Cada uma delas armazena energia por meio de reações químicas complexas, o que transforma o conjunto em um sistema altamente eficiente — mas que exige controle rigoroso.

O que é a tal "fuga térmica"

O principal fenômeno por trás dos incêndios em elétricos é o chamado thermal runaway, ou fuga térmica (também chamada de avalanche térmica). Trata-se de um processo em que uma célula da bateria entra em superaquecimento e desencadeia uma reação em cadeia. "Você tem calor gerando reação química, e a reação química gerando mais calor. Isso se retroalimenta", explica Zambelli.

Na prática, o processo pode começar de forma localizada — em uma única célula — e se espalhar rapidamente para as demais. Biscarri detalha que, nesse estágio, a célula pode liberar gases inflamáveis e até romper sua estrutura, aumentando a intensidade do incêndio e tornando o controle mais difícil. Há ainda um fator que complica o cenário: diferentemente de incêndios convencionais, a reação química da bateria pode gerar seus próprios elementos combustíveis, o que reduz a dependência de oxigênio externo e dificulta o combate.

Três caminhos para o incêndio

Apesar da complexidade do fenômeno, os especialistas convergem para três principais origens que levam à fuga térmica.

A primeira é o dano físico. Colisões, deformações no assoalho ou perfurações podem comprometer a integridade da bateria e provocar curtos internos. "Mesmo impactos que parecem pequenos podem gerar danos que não são visíveis externamente", afirma Zambelli.

A segunda está ligada ao carregamento. O uso de equipamentos inadequados, instalações elétricas improvisadas ou carregadores não homologados pode gerar sobrecarga e aquecimento excessivo. Biscarri cita casos em que o uso incorreto de equipamentos levou a incêndios ainda durante a recarga.

A terceira envolve falhas internas, que podem ser resultado de defeitos de fabricação — hoje considerados raros — ou da degradação química natural das células ao longo do tempo. Nesse processo, podem surgir microcurtos internos que evoluem para aquecimento e, em casos extremos, incêndio.

Por que parece mais perigoso

Se os elétricos pegam menos fogo, por que a sensação de risco é maior? A resposta está no impacto visual e na dinâmica do incêndio. Quando um carro elétrico entra em fuga térmica, as chamas tendem a ser mais intensas, com emissão de gases e possibilidade de pequenas explosões. Isso gera imagens mais dramáticas — e, consequentemente, maior repercussão. "É mais cinematográfico. Chama mais atenção, mesmo sendo mais raro", resume Biscarri.

Além disso, o tempo de combate é maior. Enquanto um incêndio em carro a combustão pode ser controlado em minutos, casos envolvendo baterias podem levar horas.

Incêndios mais difíceis de apagar

O desafio para conter um incêndio em carro elétrico está justamente na bateria. Como ela fica protegida e selada, o acesso direto às células é limitado. Além disso, o calor gerado internamente continua alimentando a reação mesmo após a contenção inicial das chamas. "Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro", explica Eduardo Zambelli.

É por isso que o combate exige uma abordagem diferente. Segundo o engenheiro e perito Erbis Biscarri, não se trata apenas de apagar o fogo visível, mas de reduzir a temperatura interna do conjunto. "Não é um incêndio convencional. Você precisa resfriar a bateria por completo para evitar a reignição", afirma. Na prática, isso significa uso de grandes volumes de água. De acordo com o especialista, o combate pode exigir milhares de litros — em alguns casos, estimativas chegam à casa de 40 mil litros — além de monitoramento contínuo do veículo após o controle das chamas.

O carro costuma dar sinais

Apesar da complexidade, os sistemas atuais são projetados para evitar que o problema evolua sem aviso. Os veículos contam com sistemas de gerenciamento da bateria (BMS), que monitoram temperatura, tensão e funcionamento em tempo real. Na prática, o motorista pode perceber sinais como perda de desempenho, redução de potência ou alertas no painel antes de um problema mais grave. "Ele não vai dizer exatamente o que está acontecendo, mas indica que há algo errado", diz Zambelli.

Segundo o engenheiro, na maioria dos modelos o próprio sistema atua de forma preventiva ao identificar qualquer anormalidade. Isso inclui a redução da potência do carro e até a limitação — ou bloqueio — do carregamento da bateria, como forma de evitar o agravamento da falha. Esse tipo de intervenção tende a ser perceptível ao motorista, principalmente pela perda de desempenho do veículo.

Calor, enchente e uso diário

Um dos mitos mais comuns é que o calor intenso de países como o Brasil aumentaria o risco de incêndio. Os especialistas descartam essa hipótese. "As baterias são projetadas para operar em diferentes condições climáticas. Não há evidência de que o calor, por si só, cause incêndios", afirma Zambelli. O mesmo vale para exposição à água ou enchentes, desde que não haja danos estruturais ao veículo.

Onde está o risco real

Se há um ponto de atenção claro, ele está fora da engenharia do carro — e mais próximo do uso. Intervenções fora do padrão, histórico de colisões, reparos mal executados e uso de equipamentos inadequados aparecem como fatores recorrentes nos casos analisados. "A tecnologia é segura, mas precisa ser usada dentro das condições corretas", resume Biscarri.