Incêndios em carros elétricos são mais raros, mas complexos
Incêndios em carros elétricos: raros, mas de combate complexo

Incêndios em carros elétricos: menos frequentes, mas mais complexos

Casos de carros elétricos em chamas costumam ganhar grande repercussão. Vídeos mostrando fogo intenso, fumaça volumosa e longas operações dos bombeiros frequentemente viralizam nas redes sociais, reforçando a impressão de que esses veículos representam um risco maior do que os modelos a combustão. No entanto, essa percepção não acompanha necessariamente os números.

Para entender por que os incêndios em elétricos geram tanto impacto mesmo sendo relativamente raros, o Jornal do Carro ouviu especialistas em engenharia automotiva, análise de falhas e eletromobilidade. A resposta passa menos pela frequência dos casos e mais pela forma como eles acontecem.

O que dizem os especialistas

Erbis Biscarri, engenheiro e perito judicial com atuação nas áreas elétrica, eletrônica e automotiva, especializado na análise de falhas e incêndios em veículos, é autor do livro Fires in Conventional and Electrified Vehicles: Theory, Prevention, and Analysis, publicado pela SAE International, e associado da Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE Brasil). Segundo ele, a maior repercussão dos incêndios em carros elétricos está ligada ao seu comportamento visual.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Quando ocorre uma fuga térmica, as chamas podem ganhar intensidade rapidamente, acompanhadas pela liberação de gases e, em alguns casos, pequenas explosões. “É mais cinematográfico. Chama mais atenção, mesmo sendo mais raro”, resume o especialista.

Há ainda outro fator importante: enquanto incêndios em veículos a combustão costumam ser controlados em poucos minutos, ocorrências envolvendo baterias podem exigir horas de trabalho das equipes de emergência. A sensação de perigo está menos relacionada à quantidade de casos registrados e mais ao impacto visual e operacional que eles provocam.

A bateria muda tudo

Ao contrário do que o senso comum sugere, o carro elétrico não é um sistema isolado de riscos. Ele continua sujeito a causas tradicionais de incêndio: curtos-circuitos em sistemas auxiliares, falhas mecânicas, vandalismo ou fontes externas de fogo. A diferença está no componente central do sistema — a bateria de alta tensão.

“Ele continua sendo um carro. Pode pegar fogo pelos mesmos motivos de um veículo a combustão. Mas tem uma particularidade: uma bateria muito grande, com enorme quantidade de energia concentrada”, explica Biscarri.

Essa bateria, instalada geralmente no assoalho, é composta por centenas ou até milhares de células. Cada uma delas armazena energia por meio de reações químicas complexas, transformando o conjunto em um sistema altamente eficiente, mas que exige controle rigoroso.

O que é a tal “fuga térmica”

O principal fenômeno por trás dos incêndios em elétricos é o chamado thermal runaway, ou fuga térmica (também chamada de avalanche térmica). Trata-se de um processo em que uma célula da bateria entra em superaquecimento e desencadeia uma reação em cadeia.

“Você tem calor gerando reação química, e a reação química gerando mais calor. Isso se retroalimenta”, explica Eduardo Zambelli, diretor de Eletromobilidade da Associação de Engenharia Automotiva (AEA).

Na prática, o processo pode começar de forma localizada — em uma única célula — e se espalhar rapidamente para as demais. Biscarri detalha que, nesse estágio, a célula pode liberar gases inflamáveis e até romper sua estrutura, aumentando a intensidade do incêndio e tornando o controle mais difícil. Há ainda um fator que complica o cenário: diferentemente de incêndios convencionais, a reação química da bateria pode gerar seus próprios elementos combustíveis, reduzindo a dependência de oxigênio externo e dificultando o combate.

Três caminhos para o incêndio

Apesar da complexidade do fenômeno, os especialistas convergem para três principais origens que levam à fuga térmica:

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar
  • Dano físico: Colisões, deformações no assoalho ou perfurações podem comprometer a integridade da bateria e provocar curtos internos. “Mesmo impactos que parecem pequenos podem gerar danos que não são visíveis externamente”, afirma Zambelli.
  • Carregamento inadequado: O uso de equipamentos inadequados, instalações elétricas improvisadas ou carregadores não homologados pode gerar sobrecarga e aquecimento excessivo. Biscarri cita casos em que o uso incorreto de equipamentos levou a incêndios ainda durante a recarga.
  • Falhas internas: Podem ser resultado de defeitos de fabricação — hoje considerados raros — ou da degradação química natural das células ao longo do tempo. Nesse processo, podem surgir microcurtos internos que evoluem para aquecimento e, em casos extremos, incêndio.

Incêndios mais difíceis de apagar

O desafio para conter um incêndio em carro elétrico está justamente na bateria. Como ela fica protegida e selada, o acesso direto às células é limitado. Além disso, o calor gerado internamente continua alimentando a reação mesmo após a contenção inicial das chamas.

“Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro”, explica Eduardo Zambelli.

É por isso que o combate exige uma abordagem diferente. Segundo Biscarri, não se trata apenas de apagar o fogo visível, mas de reduzir a temperatura interna do conjunto. “Não é um incêndio convencional. Você precisa resfriar a bateria por completo para evitar a reignição”, afirma.

Na prática, isso significa uso de grandes volumes de água. O combate pode exigir milhares de litros — em alguns casos, estimativas chegam à casa de 40 mil litros — além de monitoramento contínuo do veículo após o controle das chamas.

O carro costuma dar sinais

Apesar da complexidade, os sistemas atuais são projetados para evitar que o problema evolua sem aviso. Os veículos contam com sistemas de gerenciamento da bateria (BMS), que monitoram temperatura, tensão e funcionamento em tempo real.

Na prática, o motorista pode perceber sinais como perda de desempenho, redução de potência ou alertas no painel antes de um problema mais grave. “Ele não vai dizer exatamente o que está acontecendo, mas indica que há algo errado”, diz Zambelli.

Segundo o engenheiro, na maioria dos modelos o próprio sistema atua de forma preventiva ao identificar qualquer anormalidade. Isso inclui a redução da potência do carro e até a limitação — ou bloqueio — do carregamento da bateria, como forma de evitar o agravamento da falha. Esse tipo de intervenção tende a ser perceptível ao motorista, principalmente pela perda de desempenho do veículo.

Calor, enchente e uso diário

Um dos mitos mais comuns é que o calor intenso de países como o Brasil aumentaria o risco de incêndio. Os especialistas descartam essa hipótese. “As baterias são projetadas para operar em diferentes condições climáticas. Não há evidência de que o calor, por si só, cause incêndios”, afirma Zambelli. O mesmo vale para exposição à água ou enchentes, desde que não haja danos estruturais ao veículo.

Onde está o risco real

Se há um ponto de atenção claro, ele está fora da engenharia do carro — e mais próximo do uso. Intervenções fora do padrão, histórico de colisões, reparos mal executados e uso de equipamentos inadequados aparecem como fatores recorrentes nos casos analisados. “A tecnologia é segura, mas precisa ser usada dentro das condições corretas”, resume Biscarri.

Menos frequente, mais complexo — e ainda em evolução

Carros elétricos não são imunes a incêndios, mas os dados indicam que o risco é significativamente menor do que em veículos a combustão. Levantamentos citados por Biscarri apontam cerca de 25 casos a cada 100 mil veículos elétricos, contra aproximadamente 1.500 em modelos a combustão — uma diferença que pode chegar a 50 vezes.

“Quando você olha proporcionalmente, o veículo a combustão ainda pega fogo muito mais”, afirma o engenheiro. “O problema é que o incêndio no elétrico chama mais atenção e gera uma percepção diferente do risco.”

Mesmo em cenários mais conservadores, como o da Noruega, onde a frota elétrica já é expressiva, a incidência segue menor, ainda que em proporção reduzida, na casa de seis vezes. Ainda assim, os próprios especialistas ponderam que os números globais não são totalmente consolidados. “Faltam critérios padronizados para classificar esses incêndios. Isso dificulta comparações diretas entre tecnologias”, explica Biscarri.

Esse cenário ajuda a entender por que o tema ainda gera dúvidas. O incêndio em elétricos é mais raro, mas também mais complexo. A chamada fuga térmica pode ocorrer por diferentes caminhos — elétrico, mecânico ou químico — e, uma vez iniciada, tende a se propagar rapidamente entre as células da bateria. “É uma reação que se autoalimenta. Quando começa, o controle fica muito mais difícil”, diz Eduardo Zambelli.

Por outro lado, a evolução da tecnologia tem caminhado na direção oposta. Segundo os especialistas, as baterias atuais já apresentam maior durabilidade e menor taxa de falhas do que o previsto inicialmente. “Os sistemas de controle evoluíram muito. Hoje você tem monitoramento constante e mecanismos de proteção que evitam que o problema avance”, afirma Zambelli.

Na prática, isso significa que o risco existe, mas está cada vez mais controlado — especialmente quando o veículo é utilizado dentro das condições recomendadas. “Na maioria dos casos mais críticos, há um fator externo envolvido, como dano estrutural, intervenção inadequada ou uso fora do padrão”, aponta Biscarri.

A tendência, segundo os engenheiros, é que a eletrificação avance acompanhada de normas mais rígidas e maior padronização global. “A tecnologia ainda está evoluindo, mas a tendência é de redução desses casos ao longo do tempo”, diz Zambelli. Até lá, entender como esses incêndios acontecem — e em que situações — é essencial para colocar o tema em perspectiva. “Não é uma tecnologia mais perigosa. É uma tecnologia diferente, que exige entendimento”, conclui Biscarri.