Em 'Tiradentes: O Corpo do Herói', a historiadora Maria Alice Milliet analisa a metamorfose do alferes Joaquim José da Silva Xavier no principal vulto nacional. Segundo a autora, ninguém nasce herói: a construção do mito é um processo gradual, que transformou Tiradentes de infame aos olhos da Coroa em emblema da nacionalidade republicana.
Durante o Império, a historiografia subserviente a Dom Pedro II desdenhava a Inconfidência Mineira. O conflito se agravou com o avanço da oposição republicana, quando a proposta de um monumento a Tiradentes levou à publicação da 'História da Conjuração Mineira', de Joaquim Norberto, que buscava desmoralizá-lo. Norberto afirmou que Tiradentes morreu não como revolucionário, mas como um cristão místico: 'Prenderam um patriota; executaram um frade!'
O tiro saiu pela culatra: a identificação do agitador republicano com um mártir cristão garantiu a Tiradentes popularidade crescente. O mito descolou-se da história para mudar seu curso: a rebelião mais malograda materialmente foi a que mais contribuiu, simbolicamente, para a derrubada do Império.
Milliet analisa as etapas da idealização do alferes. O mito emergiu na literatura com Castro Alves e Bernardo Guimarães, mas foram as artes plásticas que consolidaram sua imagem. Em 1890, Décio Villares criou uma obra em que Tiradentes tem feições de Cristo. Cada artista posterior reinventou o mito, atribuindo ao herói qualidades diversas.
A autora observa que cada época escolhe seu passado: Fernando Collor falava na TV em tom imperial com retrato de Pedro I, enquanto Itamar Franco substituiu o quadro pelo busto de Tiradentes para assinalar o retorno a um discurso mais democrático. A era FHC, por sua vez, não tem sido favorável ao herói, com a valorização de figuras como Joaquim Nabuco, Juscelino Kubitschek e Campos Salles.



