No horóscopo chinês, o ano do cavalo começa em 17 de fevereiro de 2026, simbolizando movimento, energia e impulsividade. No Brasil, essa efeméride foi antecipada, e tudo indica que não será apenas o ano do cavalo, mas o ano dos cavalos loucos: veloz, desordenado, radicalizado e perigosamente indiferente a limites.
A corrida política começou antes do tiro de largada, em alta rotação. No centro do turbilhão está a disputa presidencial, que organiza e desorganiza todo o sistema. Na oposição, a candidatura de Flávio Bolsonaro deixou de ser hipótese para se tornar um projeto em consolidação, ainda que imperfeita, marcada por fissuras internas e dúvidas estratégicas, especialmente nos arranjos estaduais.
Do lado governista, o desenho é mais sofisticado, porém igualmente tenso. Lula aposta em ambiguidade calculada. Geraldo Alckmin prossegue como vice-presidente, fiador de um acordo com um centro político distante do governo. Fernando Haddad, sem querer ser candidato, pode ser obrigado a disputar o governo de São Paulo. Lula martela um prego no cravo e outro na ferradura: Guilherme Boulos tensiona o debate e mantém a militância engajada, enquanto Alckmin ancora a moderação, ampliando o arco político, mas normalizando a convivência permanente com o conflito.
O cenário institucional adiciona combustível. O conflito entre Congresso e STF deixou de ser episódico para se tornar estrutural. Decisões judiciais sobre emendas parlamentares são vistas pelo Legislativo como ingerência. Em resposta, parlamentares ensaiam medidas de contenção do Judiciário, formando uma espiral de retaliações cruzadas. O quadro se agrava com inquéritos abertos há anos no STF, envolvendo dezenas de pessoas que frequentemente não sabem se são investigadas, por quais fatos ou por quanto tempo. O excepcional virou rotina, e rotinas excepcionais corroem a legitimidade. Para piorar, a explosão do Banco Master provocou uma nuvem radioativa que encobre Brasília e afeta muitos agentes políticos.
Nesse ambiente, emerge o traço mais corrosivo de 2026: a relativização dos abusos. Consolida-se uma moral política utilitária, na qual excessos são tolerados quando cometidos “do lado certo”. Direitos deixam de ser princípios e passam a ser instrumentos circunstanciais. A metáfora dos cavalos loucos se impõe: como em Paris É uma Festa, de Hemingway, cavalos dopados continuam correndo depois de encerrada a prova, incapazes de reconhecer o fim da corrida, o limite físico, a regra do jogo.
O Brasil de 2026 segue essa lógica. Dopado pelo radicalismo e pela falta de contenção dos poderes, o país corre sem pausa para lugar nenhum. Correm o Executivo, o Legislativo, o Judiciário, os partidos e os mercados — em direções distintas, sem coordenação e sem consenso sobre limites. O risco maior não é quem vencerá a eleição, mas ninguém perceber que a corrida já passou da linha de chegada e que, ao continuar correndo, se abandona a construção de um projeto de país.



