Retrofit no centro de SP ganha impulso com subsídios, mas programa ainda engatinha
Retrofit no centro de SP ganha impulso com subsídios

Os apartamentos do centro de São Paulo estão mudando, mas a silhueta da região deve permanecer a mesma de décadas atrás. Com o impulso de incentivos da Prefeitura de São Paulo e subsídios milionários, incorporadoras investem na produção de retrofit e movimentam o mercado imobiliário local, mas o programa de subvenção ainda não atingiu o potencial esperado.

Programa de subvenção econômica aprova R$ 69,5 milhões

Criado para acelerar a recuperação de edifícios antigos na região central da cidade, o programa de subvenção econômica da Prefeitura aprovou R$ 69,5 milhões para 31 projetos de um total de R$ 400 milhões disponibilizados em três editais em 2023, 2024 e 2025. Apesar disso, a administração mantém a meta de alcançar R$ 1 bilhão em investimentos até 2027.

Os recursos bancam até 25% do custo dos projetos de retrofit e já contemplam empreendimentos como o Edifício Copan e a antiga sede da Telesp. A iniciativa é complementar ao Requalifica Centro, programa que promove incentivos via isenção ou redução de IPTU, ITBI e ISS, sem gerar desembolso direto da Prefeitura.

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Critérios de seleção premiam interesse público

O porcentual exato garantido pela subvenção econômica varia conforme a finalidade do imóvel, a produção de habitação de interesse social, a preservação de patrimônio histórico e a sustentabilidade. A lógica é premiar projetos com maior interesse público. Estão elegíveis à política os edifícios construídos até 1992. Segundo a Prefeitura, o objetivo é facilitar a reabilitação de prédios subutilizados e incentivar a ocupação da região.

O maior valor aprovado até o momento foi para a requalificação do Edifício Copan, que deve receber R$ 13,4 milhões. O projeto envolve o restauro da fachada do prédio projetado por Oscar Niemeyer há 60 anos. O valor aprovado para o Copan ainda não foi pago, assim como a maioria dos empreendimentos aprovados no edital de 2025. De acordo com informações da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), esse pagamento será liberado em cinco parcelas, conforme o avanço físico das obras.

“Há 12 anos, o condomínio tem a necessidade de substituição das pastilhas da fachada. Com recursos próprios, já substituímos 15 mil metros quadrados (m²), mas faltam 43 mil m²”, explica o síndico Guilherme Milani. O Copan foi contemplado por atender critérios como tombamento, fruição pública, fachada ativa e uso racional de água, o que garantiu 22,36% do total da obra em subsídios e uma pontuação de 89,45 na lista de critérios da Prefeitura. O dinheiro para financiar a subvenção econômica é oriundo do Tesouro Municipal.

Retrofit se torna negócio

Apesar da baixa execução do programa da Prefeitura, o mercado de retrofit está crescendo no Brasil. Em São Paulo, entre os projetos contemplados estão edifícios históricos que ganharão novos usos. A pontuação mais alta alcançada nos três editais foi o projeto do Basílio177, que deu um novo uso ao Edifício 7 de Abril, a antiga sede da Telesp.

O bom desempenho do plano urbanístico garantiu recursos para 22,45% do custo da requalificação, o equivalente a R$ 2,3 milhões. Deste montante, R$ 1,1 milhão já foram pagos pela Prefeitura. Inaugurado em 1939, o Brasílio177 é tombado desde 1992 e o projeto de intervenção é assinado pelo escritório Metro Arquitetos.

O antigo edifício corporativo dá lugar a um prédio residencial com 274 apartamentos divididos em três torres. As unidades variam de 35 m² a 130 m² e podem custar de R$ 600 mil a R$ 3 milhões. No térreo, a empresa vai entregar uma galeria de 3 mil metros quadrados que integra as ruas Basílio da Gama e 7 de Abril e com uma praça de alimentação aberta ao público. “A cidade já tem um patrimônio valioso construído e o futuro do desenvolvimento urbano passa por reaproveitar esses ativos, em vez de simplesmente substituí-los. Não faz parte da nossa lógica adquirir quarteirões, demolir casas ou sobrados para criar grandes terrenos e construir novas torres”, afirma a Metaforma Inc, empresa responsável pelo retrofit da Basílio da Gama.

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A empresa acredita que o edifício atrai pessoas que gostam de caminhar, usar transporte público e viver perto de restaurantes. A expectativa é que o Valor Geral de Vendas (VGV) do Basílio177 alcance R$ 280 milhões, mas a Metaforma garante que o empreendimento não vai provocar a gentrificação da região. “Recuperar edifícios abandonados e trazer novos moradores não significa substituir quem já está ali. A diversidade é justamente uma das suas maiores riquezas”, afirma a incorporadora.

Região tem valorização do metro quadrado

De acordo com uma pesquisa da Loft, realizada a pedido do Estadão, o preço do metro quadrado na região central de São Paulo valorizou 13,1% nos últimos quatro anos e o número de transações saltou 16%. Nesse contexto de valorização da região, a LAF Incorporadora lidera a requalificação de um edifício de 1950 na Rua Sete de Abril, 342. O prédio de escritórios foi construído por Ezio Martinelli, imigrante italiano vindo da região de Florença e bisavô dos sócios da incorporadora. Mais de sete décadas depois, a mesma família agora requalifica o prédio com retrofit assinado por Ricardo de Almeida. Para os empresários, o negócio representa um legado para a trajetória da família.

“O retrofit é uma forma de preservar a memória da cidade e contribuir para uma ocupação mais qualificada, viva e sustentável da região”, afirma Filipe Rossi, diretor comercial da LAF Incorporadora, e um dos herdeiros do edifício. Batizado de Firenze 342, o prédio também vai contar com um rooftop de lazer para os moradores, priorizará a iluminação natural e pretende atrair tanto moradores finais quanto investidores.

Com previsão de entrega para o início de 2029, as salas corporativas serão transformadas em 102 apartamentos para moradia, com estúdios e apartamentos de dois dormitórios de 31 m² a 53 m², além de academia de ginástica e áreas de lazer. Para tirar o empreendimento do papel, a LAF Incorporadora foi beneficiada com R$ 1,7 milhão de recursos financeiros oriundos da Prefeitura, dos quais R$ 339 mil já foram pagos. A empresa alcançou 13,75% de subvenção no programa de subvenção econômica.

Atração de investimentos e debates sobre ocupação

Na visão de Thomaz Brancati, CEO e fundador da empresa de inteligência imobiliária Allrea, o incentivo à produção de retrofit no centro é vantajoso porque a região já conta com uma infraestrutura básica desenvolvida. “Os projetos podem se tornar mais baratos, pois muitas vezes o ‘esqueleto’ do prédio já existe, sendo necessárias apenas adequações e modernizações”, explica. Ele avalia com bons olhos medidas que incentivam este tipo de produção. “Prédios abandonados geram custos altos e problemas de administração, como invasões, acúmulo de dívidas e criminalidade”, comenta.

No entanto, a forma como o tema é tratado também levanta debates sobre ocupação da cidade. “O retrofit de imóveis é um desafio há muito tempo em São Paulo. A legislação era difícil e os programas da Prefeitura tiveram um impacto positivo ao mostrar que era possível. Eles destravaram os investimentos no centro”, avalia Renato Cymbalista, professor do departamento de arquitetura e urbanismo da Universidade de São Paulo. “O ponto negativo é que isso só foi possível mediante subsídio público. E, portanto, precisaria estar vinculado a alguma finalidade social. Não adianta a gente enriquecer uma construtora com dinheiro público para produzir mais imóveis para o mercado”, comenta.