O governo federal anunciou nesta quarta-feira (22) um pacote de socorro de R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito com juros subsidiados para atender empresas brasileiras afetadas pelo novo tarifaço dos Estados Unidos e pelas incertezas do cenário internacional. A medida, batizada de Brasil Soberano III, coincide com a entrada em vigor da taxa adicional de 25% imposta pelo governo Donald Trump, que deve atingir 15% da pauta exportadora do Brasil para os EUA, ou US$ 5,8 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Quem será beneficiado?
Além das empresas diretamente impactadas pelo tarifaço, a linha de socorro atenderá companhias prejudicadas por conflitos internacionais, especialmente as que exportam para países do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Irã, Kuwait e Omã. Também serão contemplados setores considerados estratégicos para a balança comercial e a segurança produtiva do país, incluindo fertilizantes, minerais críticos e estratégicos, produtos químicos, farmacêuticos, têxteis, automotivos, equipamentos eletrônicos, máquinas e materiais elétricos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou no evento e afirmou que o Brasil não sairá da mesa de negociações, mas criticou a falta de reciprocidade dos EUA. “Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo”, disse. Lula expressou confiança de que o país pode sair fortalecido: “Todos nós, desde que entendemos as primeiras palavras, ouvimos a frase ‘há males que vêm para o bem’. Na política, a sociedade sempre encontra um jeito de sair mais forte. Na economia, também provamos que precisamos encontrar saídas para as crises. Estamos demonstrando, com o Brasil Soberano III, que não há crise que impeça o Brasil de continuar crescendo”.
Recursos e condições do crédito
Do total de R$ 18,5 bilhões, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o governo está utilizando recursos já mobilizados pelo BNDES que não foram usados anteriormente. Os recursos poderão ser aplicados em capital de giro, aquisição de bens de capital, investimentos produtivos, inovação tecnológica, adaptação de produtos e processos, além de prospecção e abertura de novos mercados.
O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, explicou que cada linha de crédito será regulamentada com requisitos específicos, incluindo a possível exigência de manutenção de empregos. “A regulamentação vai sair no curtíssimo prazo”, garantiu. As taxas de juros variam de 3% ao ano para minerais críticos a 9,80% ao ano para capital de giro de grandes empresas, todas subsidiadas em relação ao mercado.
O vice-presidente Geraldo Alckmin destacou que o programa também oferece seguro garantia para pequenas empresas. O plano de aplicação será elaborado pelo BNDES e submetido a um conselho interministerial, cuja composição será definida por decreto.
Impacto e setores mais afetados
O auxílio às empresas atingidas é prioridade do governo, embora o impacto macroeconômico da medida seja considerado pequeno. Segundo o ministro da Indústria, Márcio Elias Rosa, os setores mais prejudicados são madeira, móveis, produtos cerâmicos, máquinas e equipamentos, calçados e açúcar. Ele mencionou ainda a expectativa de novas tarifas dos EUA sobre trabalho forçado, com alíquotas de 10% a 12,5% para mais de 60 países, incluindo o Brasil.
O ministro da Fazenda já havia sinalizado que o reforço financeiro seria mais modesto que os anteriores. A primeira fase do Brasil Soberano, em agosto de 2025, disponibilizou R$ 30 bilhões para exportadores, complementados por mais R$ 15 bilhões no início de 2026. O pacote original também incluiu alívio tributário e facilitação de compra de excedentes por União, estados e municípios.
Reivindicações do setor privado
Empresários ouvidos pelo governo pediram medidas adicionais. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) solicitou o aumento do percentual do Reintegra, programa que devolve parte do imposto retido ao exportador. Já a Associação Brasileira das Indústrias Calçadistas (Abicalçados) pediu maior proteção contra a concorrência asiática, por meio de salvaguardas comerciais.
Na cerimônia, Lula também sancionou uma lei que liberou R$ 15 bilhões referentes ao Brasil Soberano II. O histórico do programa inclui: em agosto de 2025, o Brasil Soberano original com R$ 30 bilhões; em março de 2026, o Brasil Soberano 2 com R$ 21 bilhões (R$ 15 bi do Tesouro e R$ 6 bi do BNDES); e agora, em julho de 2026, o reforço de R$ 18,5 bilhões.



