Risco eleitoral: mercado monitora Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro cria novo front de risco eleitoral

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformou-se em um novo vetor de incerteza para os mercados financeiros, à medida que articulações políticas do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro ganham corpo para as eleições de 2026. Investidores e gestores de recursos começaram a embutir nos preços dos ativos a possibilidade de uma candidatura que, embora ainda indefinida, já altera o cálculo do cenário fiscal e institucional do país.

Segundo relatório de uma das principais gestoras do país, o chamado “prêmio de risco eleitoral” subiu 15% nas últimas quatro semanas, conforme aumentaram as especulações sobre o nome de Flávio. O modelo da casa estima em 12% a probabilidade de um candidato ligado diretamente à família Bolsonaro vencer a corrida presidencial, ante 8% no início deste ano.

O que muda na leitura do mercado

Para analistas, a novidade não é a simples presença de Flávio – que já vinha sendo citado como possível candidato ao governo fluminense –, mas a amplitude das articulações. Nos últimos dias, o senador reuniu-se com prefeitos e lideranças políticas em estados do Sudeste, o que foi interpretado como uma tentativa de construir um palanque nacional alternativo ao do próprio Jair Bolsonaro.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

“O mercado começa a desenhar um cenário de extrapolação fiscal caso Flávio entre na disputa de forma competitiva, o que pressiona a curva de juros e o câmbio”, afirma um gestor de um fundo macro que prefere não se identificar. “O que mais pesa é a percepção de que ele transite por um discurso de confronto com as instituições, semelhante ao que marcou a gestão do pai.”

Impacto nos ativos

A reação nos preços, por ora, é modesta, segundo operadores. O dólar futuro, que chegou a ensaiar alta de 0,8% em um dia de maior tensão, foi puxado para baixo por intervenções pontuais do Banco Central. Já os juros longos — como o contrato de DI para 2027 — fecharam a sexta-feira com leve alta, mas o ajuste está concentrado em vencimentos mais curtos, reflexo de uma possível mudança no cardápio de políticas.

De acordo com o economista-chefe de uma corretora local, “o mercado ainda não está precificando um cenário de ruptura, mas o risco eleitoral volta a ser um componente central nas estratégias de alocação, especialmente para quem aposta no arcabouço fiscal”.

Histórico e reações

Flávio Bolsonaro, que atualmente exerce o mandato de senador, tornou-se recorrente nos noticiários de política e economia. Sua aproximação com segmentos do agronegócio e com discursos de defesa do Estado mínimo ressoam em alguns setores, mas também acendem alertas entre investidores estrangeiros, que enxergam risco de reversão em políticas econômicas.

Há ainda o fator judicial. Investigado em casos de supostas irregularidades, Flávio pode ter sua situação complicada pela abertura de novos processos, o que elevaria a volatilidade. “A confluência de elementos jurídicos e políticos é típica do Brasil, mas o que muda agora é a sincronia com o calendário eleitoral”, avalia um estrategista de uma gestora global.

Qual o cenário mais provável?

Na leitura de cientistas políticos ouvidos pelo Valor, Flávio deverá definir sua candidatura apenas no primeiro trimestre de 2026, o que mantém o ambiente de indefinição. Enquanto isso, o mercado se prepara para cenários adversos, adquirindo proteção em opções e reduzindo posições em ativos de risco brasileiros.

A avaliação é que, se Flávio se consolidar como um nome viável, o prêmio de risco aumentará de forma estrutural, afetando o câmbio e os juros. Se, por outro lado, seu nome for relegado a um plano estadual – como disputar o governo do Rio de Janeiro–, o impacto será limitado ao cenário local.

Expectativa para os próximos meses

Com a aproximação das eleições, a tendência é de que o noticiário político ganhe ainda mais força nos determinantes de preço. O mercado acompanha cada movimento do clã Bolsonaro, preocupado com uma possível reedição de tensões institucionais. A depender dos desdobramentos, a nova frente de risco pode inaugurar uma fase de maior aversão ao risco no país.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

“O momento é de cautela. A volatilidade implícita nos contratos de câmbio já subiu 20% em um mês, sinal de que a turma está comprando proteção contra cenários mais extremos”, diz um trader de uma grande corretora. Para ele, o mercado acertou ao não subestimar Flávio. “O sobrenome pesa, e o passado recente mostra que o eleitor brasileiro pode surpreender.”

O desafio para os investidores será separar o ruído das pesquisas das movimentações concretas. Por ora, a recomendação da maioria das grandes casas é manter a cautela e a diversificação.