Desistências podem levar a disputa inédita com apenas dois candidatos ao governo de SP
Desistências podem levar a disputa inédita com dois candidatos em SP

A desistência de Paulo Serra (PSDB) e Kim Kataguiri (Missão) da disputa pelo governo de São Paulo em outubro pode gerar um cenário inédito no estado, com apenas dois candidatos entre os partidos com representação na Câmara dos Deputados, segundo especialistas ouvidos pelo g1. Faltando menos de um mês para o início das convenções partidárias, a disputa deve se concentrar entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT). Salvo partidos nanicos, nenhuma outra sigla grande deve lançar candidato ao governo paulista.

Polarização inédita desde a redemocratização

Os cientistas políticos afirmam que é muito provável que a eleição seja definida no primeiro turno. “Desde 1982, com a retomada do voto direto para governador, quando Franco Montoro foi eleito, a gente sempre teve pelo menos três ou quatro candidatos realmente competitivos. Essa polarização estadual é inédita e traz um risco de nacionalização do debate que pode deixar os problemas de São Paulo de fora das discussões eleitorais no estado”, disse Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Pesquisa e riscos para o debate

Pesquisa Quaest mostra Tarcísio com 38% e Haddad com 26% das intenções de voto. “A pluralidade sempre é muito boa para a democracia. Esse cenário é o reflexo da polarização nacional e pode se refletir até na ida aos debates do Tarcísio. Porque, uma vez que ele chegue numa posição confortável nas proximidades do pleito, pode não querer debater os problemas atuais do estado como privatização da Sabesp, Segurança Pública e transporte público, que são o telhado de vidro da atual administração dele em São Paulo”, afirmou Teixeira.

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Estratégia de Márcio França para forçar segundo turno

Para evitar uma eventual vitória de Tarcísio no primeiro turno, o ex-ministro Márcio França (PSB) voltou a conversar com lideranças petistas para se lançar como terceiro candidato, com o argumento de forçar a realização de um segundo turno em São Paulo. Inicialmente, França era o principal nome em discussão para compor a chapa de Haddad, uma vez que Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) lideram a corrida pelas duas cadeiras do Senado do estado.

A estratégia seria que Haddad e França fizessem dobradinha nos debates e nas redes sociais para desgastar o atual governador. Embora o assunto ainda esteja em debate entre petistas e a cúpula do PSB, França já começou a cutucar Tarcísio nas redes sociais. Na semana passada, quando o governador pediu desculpas pela onda de roubos de celulares, França comentou: “O paulista aceita até desculpas sinceras, mas não aceita reincidência. O @fernandohaddadoficial já alertou sobre isso há muito tempo”.

Possível impacto de França na disputa

“A entrada do Márcio França na disputa pode trazer uma novidade interessante, porque ele não é do PT e, portanto, talvez não tenha tanta rejeição no interior do estado, onde o antipetismo é forte. Ele talvez parte de um patamar interessante de intenção de voto, mas pouco se tem de evidência de que parte do eleitor e da elite possam migrar de voto e a coisa não ser resolvida também no primeiro turno. Vai depender da desconstrução que a oposição vai conseguir ou não fazer sobre a gestão Tarcísio em SP”, alerta Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria.

Nacionalização da eleição e efeitos na presidencial

O professor da FGV também diz que a resolução da eleição estadual em São Paulo ainda no primeiro turno pode trazer dificuldades para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), caso a eleição nacional vá para o segundo turno. “Hoje o Tarcísio tem mais voto em São Paulo que o Flávio, invertendo a eleição passada, onde o Jair era o puxador de votos do Tarcísio. Com a disputa eleitoral se encerrando no maior colégio eleitoral do país no primeiro turno, o Flávio talvez possa ficar sem a mobilização necessária no estado, caso avance para o segundo turno”, afirmou.

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Para Rafael Cortez, a decisão da eleição no maior colégio eleitoral do país pode ter dois efeitos contraditórios. “A disputa binária antecipa um cenário de segundo turno na primeira etapa da eleição e pode de fato decidir o pleito na primeira rodada, se não aparecer outro candidato até o fim do período de convenção. Mas ela tem efeitos limitados na disputa presidencial. Porque, uma vez que o Tarcísio reeleito tenha presença institucional de alavancar a busca dos votos pelo Flávio no estado onde mais precisa, ela também pode elevar as abstenções no segundo turno, de um eleitor que está cansado da polarização lulismo e bolsonarismo. O Flávio precisa, sobretudo, que seu eleitor registre o voto na urna e compareça no dia da votação, já que a tendência hoje é que o pleito presidencial vá para a segunda rodada”, afirma.

“A nacionalização de um debate em São Paulo é quase natural, uma vez que é o estado mais rico, de onde saem as principais lideranças do país. Mas se a oposição tem alguma intenção de ganhar ou levar a disputa para o segundo turno no estado, vai ter que se pautar pelos problemas do estado, onde Tarcísio é muito bem avaliado”, declarou Cortez.

Histórico das eleições pós-redemocratização em SP

Em 1982, Franco Montoro (PMDB) foi eleito no primeiro turno com 49% dos votos válidos, num formato que ainda não havia segundo turno. Enfrentou Reinaldo de Barros (PDS), Jânio Quadros (PTB) e Lula (PT). Em 1986, Orestes Quércia (PMDB) foi eleito no primeiro turno com 40,78%, contra Antonio Ermírio de Moraes (PTB), Paulo Maluf (PDS) e Eduardo Suplicy (PT).

A primeira eleição com segundo turno foi em 1990, quando Luiz Antonio Fleury Filho (PMDB) venceu Paulo Maluf (PDS) no segundo turno, mesmo tendo perdido o primeiro turno para Maluf, que teve 43,50% contra 28,17% de Fleury. No segundo turno, Fleury venceu com 51,77% contra 48,23% de Maluf, com apoio indireto de Mário Covas (PSDB) e Plínio de Arruda Sampaio (PT), que não apoiaram explicitamente nenhum dos candidatos, mas geraram voto útil contra Maluf.