Os Estados Unidos e a Arábia Saudita firmaram um aguardado acordo de compartilhamento de tecnologia nuclear que pode permitir que empresas americanas construam reatores no país árabe e, pela primeira vez, autoriza o reino a enriquecer seu próprio combustível nuclear. O pacto, assinado nesta quarta-feira pelo secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e pelo ministro da Energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, inclui um "acordo de cooperação nuclear pacífica" e um "acordo bilateral de salvaguardas", conforme comunicado do Departamento de Energia americano.
Detalhes do acordo e impacto comercial
O acordo pode beneficiar diretamente a Westinghouse Electric e outras empresas americanas do setor, abrindo um mercado avaliado em dezenas de bilhões de dólares. Uma parte central prevê que empresas dos EUA poderão construir uma instalação de enriquecimento de urânio na Arábia Saudita, caso um estudo conjunto dos dois países conclua que isso é necessário, segundo o Wall Street Journal. "Esses acordos refletem o compromisso comum de nossos dois países com o fortalecimento das relações comerciais entre EUA e Arábia Saudita, promovendo prosperidade dentro de casa e segurança para nossos aliados no exterior", afirmou Wright em comunicado. "Eles seguem os mais altos padrões de segurança nuclear e de não proliferação, com apoio da melhor tecnologia nuclear e dos melhores cientistas do mundo, desenvolvidos aqui mesmo nos Estados Unidos."
Mudança na política de não proliferação
O entendimento representa uma ruptura em relação a tratados anteriores de cooperação nuclear, que proibiam de forma explícita o enriquecimento de urânio. Acordos anteriores com países como o Japão vedavam expressamente o enriquecimento e o reprocessamento de urânio já utilizado. No início deste ano, a Casa Branca enviou ao Congresso um relatório de três páginas defendendo o compartilhamento de tecnologia nuclear sensível com Riad, incluindo possível cooperação em enriquecimento de urânio e reprocessamento de plutônio. O documento, obtido pela Bloomberg, afirma que esse tipo de acordo atenderia aos interesses de segurança dos EUA e daria a Washington mais visibilidade sobre o programa nuclear saudita.
Preocupações com proliferação nuclear
A mudança gerou preocupação entre especialistas em não proliferação nuclear e alguns integrantes do Congresso dos EUA, que veem risco de a Arábia Saudita usar o enriquecimento para obter material com potencial uso militar. "Se os detalhes divulgados estiverem corretos, isso sinaliza uma mudança na política de não proliferação dos EUA e pode desencadear uma corrida nuclear no Oriente Médio", disse Dina Esfandiary, analista da Bloomberg Economics. "Os EUA estão dando à Arábia Saudita justamente aquilo que foram à guerra com o Irã para impedir: o enriquecimento." Grupos de monitoramento ligados à não proliferação afirmam que o acordo pode abrir precedente para que outros países do Oriente Médio também reivindiquem o direito de produzir combustível nuclear, aproximando a região de uma corrida armamentista atômica.
Contexto geopolítico e concorrência
Para os sauditas, o acordo vai além da questão nuclear. "Trata-se também de aprofundar o vínculo com os EUA na área de segurança, garantindo que Washington tenha interesse direto na proteção do reino", afirmou Esfandiary. O entendimento também pode ajudar empresas americanas a ganhar espaço em uma região onde concorrentes vêm avançando, especialmente a Rússia. Turquia e Egito, duas das maiores economias do Oriente Médio e aliados importantes dos EUA, vêm trabalhando com a estatal russa Rosatom na construção de usinas nucleares. A primeira unidade turca deve entrar em operação ainda neste ano. Antes dos ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, o governo Biden chegou a considerar incluir a cooperação nuclear com os sauditas em um acordo regional mais amplo, que previa a normalização das relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Israel em troca de concessões israelenses aos palestinos.
Críticas e riscos
Henry Sokolski, diretor-executivo do Nonproliferation Policy Education Center, criticou a abordagem: "Assim como ocorreu no governo Biden, a equipe de Trump aposta na ideia fantasiosa de que existe algum mecanismo secreto e infalível capaz de impedir que a Arábia Saudita enriqueça urânio para fabricar bombas. Na prática, essa proteção não existe." Wright, ao ser questionado sobre o acordo, disse que ele inclui "os mais altos padrões de salvaguardas nucleares, tanto em segurança quanto em não proliferação". O pacto pode enfrentar forte oposição no Congresso dos EUA devido aos temores de proliferação atômica na região.



