O escritor catarinense Cristovão Tezza, de 73 anos, recebeu nesta quinta-feira, 23, o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto da obra. Premiado anteriormente com Jabuti, APCA e Brasil Telecom, Tezza se junta a nomes como Érico Veríssimo, Cecília Meireles e Fernando Sabino. Em entrevista ao Estadão, ele reflete sobre o significado do prêmio, a possibilidade de se tornar imortal da ABL, e o impacto da inteligência artificial na literatura.
O significado do Prêmio Machado de Assis
Tezza destaca que o prêmio é diferente por reconhecer toda a sua trajetória literária, e não uma obra específica. "A Academia Brasileira de Letras tem um peso diferenciado pelo que representa e sintetiza simbolicamente no imaginário da cultura e da literatura brasileiras. Com todas as suas contradições ao longo da história, o Brasil ama e respeita a Academia fundada por Machado de Assis", afirma. O escritor, que nunca concorreu a uma das 40 vagas da ABL, não descarta a hipótese de se tornar imortal: "Não sonho com ela, mas quem sabe?"
Best-sellers e a formação de leitores
Questionado sobre o que faz um livro se tornar best-seller, Tezza responde: "Ninguém sabe exatamente; é um mistério. Todo best-seller responde a uma demanda cultural, afetiva e social de seu tempo; ele sempre toca em algum nervo que, naquele momento, está em busca de uma resposta." Ele também defende a importância de eventos literários, como a Bienal Internacional do Livro de Jaraguá do Sul, da qual participará em agosto. "O surgimento e a multiplicação dos eventos literários foram o grande acontecimento na vida do escritor brasileiro nos últimos vinte ou trinta anos. Eles ajudam a formar leitores e fazem da leitura um valor social importante."
Inteligência artificial e o futuro da escrita
Tezza se mostra cético quanto ao uso de IA na criação literária. "Se escrever é o maior prazer da minha vida, por que diabos eu iria terceirizar minha escrita a uma máquina? Entendo a literatura como uma viagem ética de percepção e reconhecimento do mundo, pessoal e intransferível." Ele reconhece, no entanto, o impacto da IA em áreas instrumentais da linguagem, como traduções instantâneas, que evoluíram rapidamente para um padrão de correção próximo da perfeição.
O próximo livro e a personagem Beatriz
Tezza revela que está escrevendo uma sequência de Beatriz e o Poeta (2022), na qual a personagem Beatriz, agora com quase 50 anos, vive com Gabriel. "A história inteira se passa em duas horas, mas leva mais de um ano para escrever. Imagino que estará pronto no ano que vem." O autor, que tem 33 livros publicados, admite que não saberia escolher um único para salvar em um incêndio, mas cita Trapo, O Filho Eterno e Visita ao Pai como representativos de diferentes fases de sua carreira.
Conselho para novos escritores
Ao ser questionado sobre o conselho para quem quer viver de literatura, Tezza brinca: "Os dois conselhos são bons: 'Desista enquanto há tempo' e 'Acredite nos seus sonhos'. Escrever é tanto uma alegria quanto uma viagem sem volta. Se a ideia é só ganhar a vida, desconfio de que há profissões infinitamente mais seguras e lucrativas do que escrever ficção."



