O presidente dos EUA, Donald Trump, está preocupado em perder a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato em novembro, o que poderia abrir caminho para um novo processo de impeachment com chances reais de sucesso no Senado. Esse temor explica seu pronunciamento na quinta-feira passada, quando foi à TV em horário nobre para reafirmar, sem provas, que sua derrota para Joe Biden em 2020 foi “fraudada ou roubada”. Essa é a base da confusão que Trump está armando para as chamadas midterms.
Acusações infundadas contra a China
O inimigo imaginário da vez é a China. Trump acusou Pequim de ter “roubado” dados de 220 milhões de eleitores. A realidade factual, no entanto, não tem relevância para golpistas: dezenas de ações judiciais movidas por Trump e seus aliados para reverter a vitória de Biden sob alegação de fraude foram rejeitadas. Recontagens, auditorias e investigações do próprio Departamento de Justiça nunca encontraram uma prova sequer de fraude na eleição de 2020.
Estratégia para deslegitimar as midterms
Não é a primeira vez que Trump tenta corroer a legitimidade de um processo eleitoral que, antes dele, nunca foi seriamente questionado nos EUA. A novidade é o momento: faltam poucos meses para as eleições que renovarão o Congresso. Exclusivamente por seus deméritos, Trump corre sério risco de perder o apoio que sustenta seus desatinos no Capitólio. Nesse sentido, seu discurso não foi um alerta, mas um ardil para semear dúvidas antecipadas sobre o resultado das midterms, caso seja desfavorável ao Partido Republicano.
Redistricting e mudanças nas regras eleitorais
Grave por si só, o discurso golpista de Trump vem acompanhado de um esforço concreto de seu governo para alterar as regras do jogo antes mesmo da eleição. Dez estados já mudaram ou estão mudando as fronteiras de seus distritos eleitorais, prática conhecida como redistricting. Trump pressionou aliados em estados republicanos a redesenhar os mapas para ampliar as chances do partido em distritos disputados. Com a manobra, a Casa Branca estima garantir de oito a dez cadeiras adicionais para os republicanos, o que seria suficiente para blindar a estreita maioria pró-Trump na Câmara, hoje com 218 assentos.
Save America Act e pressão sobre comissão eleitoral
O governo também pressiona o Congresso a aprovar o Save America Act, que exige prova documental de cidadania para o registro eleitoral e dificulta o voto por correspondência. Além disso, comissários da Comissão de Assistência Eleitoral (EAC) foram destituídos, deixando o órgão bipartidário sem quórum para certificar novos sistemas de votação. Trump, em pessoa, segue atuando como uma espécie de bedel ideológico do Partido Republicano nas primárias, infernizando a vida de qualquer candidato que não lhe preste vassalagem.
Convenção especial no Texas
Outra medida que revela as más intenções de Trump foi a confirmação de que os republicanos realizarão uma convenção nacional especial de meio de mandato, no Texas. A praxe de convenções nacionais apenas em ano de eleição presidencial foi rompida para que Trump possa influenciar diretamente as escolhas de seu partido em distritos nos quais a disputa está mais acirrada.
Padrão neopopulista e ataque à imprensa
Esse rol de medidas, somado ao discurso presidencial que reedita teorias da conspiração sobre a eleição de 2020, obedece ao padrão do neopopulismo inaugurado por Trump. O presidente dos EUA não precisa provar fraude alguma; basta semear a dúvida para deslegitimar as eleições caso perca o controle do Congresso em novembro. É sintomático que emissoras como ABC, NBC e CNN tenham hesitado em transmitir o pronunciamento, o que levou Trump a ameaçar com a cassação de suas licenças, um ataque frontal à liberdade de imprensa que atesta seu vezo autoritário.
Democracia americana sob teste
Não sem sobressaltos, a democracia americana tem sobrevivido a Trump, mas será testada novamente. Em novembro, o mundo verá se as instituições e o eleitorado dos EUA resistirão a um presidente que faz o que pode e o que não pode para reescrever as regras do jogo quando se dá conta de que pode perder a partida.



