Diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o governo brasileiro priorizou o discurso político em vez da negociação, segundo leitores do Estadão. Enquanto diversos países buscaram reduzir perdas por meio do diálogo, o Brasil transformou a disputa comercial em uma bandeira ideológica, alimentando a polarização do “nós contra eles”. Agora, anuncia programas para socorrer os setores atingidos. A pergunta é inevitável: não teria sido mais eficaz investir desde o início em uma estratégia capaz de minimizar os prejuízos? Remediar costuma ser mais caro do que prevenir. Em disputas comerciais, discursos não preservam empregos nem evitam perdas para a indústria, o agronegócio e os consumidores. Quando a política ocupa o lugar da diplomacia, quem paga a conta é a economia. E, no fim, essa conta sempre chega ao contribuinte, afirma Luciana Lins, de Campinas.
Contradição bolsonarista
A recente articulação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos deixa clara a sua agenda: alinhar-se a Donald Trump para priorizar interesses de corporações americanas em detrimento do desenvolvimento brasileiro. No mesmo compasso, Eduardo Bolsonaro busca abrigo político no exterior à medida que avança o cerco jurídico contra ele no Brasil. Esse cenário expõe a grande contradição do bolsonarismo: sob a fachada de um discurso patriótico, a extrema direita atua, na prática, para subordinar a soberania nacional aos interesses de Washington, escreve Gilberto Pereira Tiriba, de Santos.
Bibliotecas públicas
Maravilhoso o artigo A leitura como urgência civilizatória, do professor Renato de Sá Teles, da Unifesp (Estadão, 16/7, A4). A Constituição Cidadã consagrou o princípio da colaboração federativa na gestão e provisão das políticas culturais, mas estamos longe de considerá-las, de fato, entre as prioridades nacionais. As bibliotecas públicas já cumpriram, no passado, papel muito relevante no acesso ao livro e à leitura. A cidade de São Paulo, que desde o pioneirismo de Mário de Andrade como diretor do então Departamento de Cultura da capital paulista, há quase um século, constituiu uma ampla rede de bibliotecas públicas, poderia ser referência para o País nessa área. Mas, infelizmente, não é mais o caso. No período recente, o que temos assistido é ao sucateamento programado e ao quase abandono dessa rede de serviços que, um dia, foi orgulho de todos nós paulistanos, lamenta Ricardo Ernesto Vasquez Beltrão, de São Paulo.
Indústria da impunidade
A excelente coluna Terra sem lei (Estadão, 17/7, B7), de Elena Landau, retrata com precisão uma realidade que vivencio diariamente. Há meses venho solicitando à Prefeitura de São Paulo a instalação de um equipamento de fiscalização no cruzamento da Rua Inhambu com a Avenida dos Eucaliptos, em Moema. Nesse local, é rotineiro o desrespeito ao semáforo vermelho por motoristas de carros, motocicletas e outros veículos. Não se trata de casos isolados ou de mera distração, mas de uma conduta recorrente, praticada com a convicção de que não haverá qualquer consequência. Infelizmente, nada acontece. Nos últimos anos, decisões tomadas em diferentes esferas do Poder Executivo contribuíram para esse cenário. De um lado, houve o aumento do limite de pontos na CNH para aplicação de penalidades mais severas. De outro, a Prefeitura de São Paulo suspendeu a instalação de cerca de 1.500 novos equipamentos de fiscalização eletrônica, sob o argumento de combater a chamada “indústria da multa”. A meu ver, essa expressão representa um falso debate. O verdadeiro problema não é uma suposta “indústria da multa”, mas sim a crescente “indústria da impunidade”, que transmite ao infrator a percepção de que desrespeitar as leis de trânsito não gera consequências. O resultado está nas ruas: mais insegurança, maior risco de acidentes e a banalização do descumprimento das normas que deveriam proteger a vida. O Brasil precisa de governantes que tratem a segurança pública e o trânsito como políticas de Estado, e não como temas sujeitos a discursos de ocasião. Somente com fiscalização efetiva, cumprimento da lei e responsabilidade pública deixaremos de caminhar para uma verdadeira terra sem lei, conclui Márcio M. Pascholati, de São Paulo.
Eleição presidencial
Afinal, voto em Flávio ou em Jair? Parece infantil a dependência de Flávio em relação ao pai, vivendo à base de cartas, avais e conselhos. Afinal, fica a dúvida: se a campanha já depende inteiramente do pai, o possível governo também dependerá dele? O eleitor quer votar em quem realmente vai tomar as decisões, questiona Afonso Gallo Casanova, de Rio Claro.
Pré-campanha
Incrível a pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. É como se todo dia ele fizesse alguma coisa que dissesse ao eleitor: “Não vote em mim”, ironiza Luiz Frid, de São Paulo.
Pedido de socorro
A poucos meses da eleição, em meio a um forte racha interno no PL e a uma crise exposta com a madrasta, o desgaste, a desconfiança e a inexpressividade do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) são de tal monta que, num gesto que deve ser visto como um pedido de socorro, ele apresentou ao País uma carta escrita pelo pai, avalizando sua escolha como legítimo porta-voz para disputar a Presidência. O cúmulo é a falta de originalidade ao chamar a missiva de “Carta aos Brasileiros”, imitando o que foi feito pelo presidente Lula da Silva em 2002. Digno de dó, afirma J. S. Vogel Decol, de São Paulo.
Novo tarifaço
Em sua decisão essencialmente política, e não comercial, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) foi direto ao ponto. Ficaram de fora os produtos que aumentam a inflação nos Estados Unidos – petróleo, carne bovina, café e pescados. Os demais – etanol, calçados e manufaturados em geral – serão taxados em mais 25%. É hora de somar esforços do governo e do Congresso para diminuir o impacto dessa decisão e buscar outros mercados, reduzindo a dependência brasileira do abusivo Tio Sam, defende Omar El Seoud, de São Paulo.
Extrema direita
O mandato do presidente Donald Trump termina em 20 de janeiro de 2029. O Brasil já deveria estar articulando, com os possíveis sucessores, uma grande pauta para compensar os ataques 100% políticos que vem sofrendo da extrema direita americana. A extrema direita brasileira está dando um baile na articulação com os americanos, enquanto o governo brasileiro segue chupando o dedo, reagindo sempre com enorme atraso e sem nenhuma eficácia. O governo de esquerda brasileiro precisa plantar articuladores nos EUA para equilibrar esse jogo, sugere Mário Barilá Filho, de São Paulo.
Penalização
Pergunto ao grande falador Lula se, com as novas tarifas dos Estados Unidos, ele vai incorporar o espírito de Lampião e ameaçar Trump. Afinal, Lula adora mostrar uma face que nada tem a ver com entendimento. Talvez por isso o destemperado Trump nos penalize, provoca Antonio Jose Gomes Marques, de São Paulo.
Pix
O Pix é um instrumento criado por nós, brasileiros, e que deu muito certo. Segundo pesquisas, 80% da nossa população já o utilizaram, e mais de 90% o aprovam. Por isso, não devemos aceitar críticas nem interferências externas que tentem atingi-lo. Em sua defesa, repetimos o que dissemos no passado em relação ao petróleo: o Pix é nosso, afirma Sylvio Belém, de Recife.
Saúde financeira
A verdade é que a cúpula do Congresso não tem a mínima preocupação com a saúde financeira do Estado brasileiro. O que realmente importa, no fim das contas, são os interesses corporativistas que permeiam as estruturas do poder. Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, é o primeiro a abrir as portas do cofre do Tesouro com o objetivo de manter ou ampliar as benesses do Legislativo. O mais triste é que até integrantes do Tribunal de Contas da União (TCU) aceitaram fazer vista grossa. Eles permitem que medidas absolutamente irresponsáveis do ponto de vista fiscal sejam aprovadas com ar de responsabilidade pelos legisladores federais, denuncia Willian Martins, de Guararema.
Delação premiada
É evidente que um acordo de colaboração com Daniel Vorcaro só faz sentido se encarado sob a ótica da reciprocidade de interesses entre a defesa e o Estado. Contudo, para que o processo seja verdadeiramente eficaz diante do volume de provas recolhidas pela Polícia Federal (PF), a instituição deveria adotar uma postura impositiva, separando o caso por núcleos específicos. O papel da PF e do Ministério Público é exigir a revelação detalhada das propinas, das contas de destino e dos comprovantes dos repasses, argumenta Jorge de Jesus Longato, de Mogi Mirim.
Data centers
O artigo Data centers – ter ou não ter? (Estadão, 14/7, B12), de Demi Getschko, apresenta uma reflexão necessária sobre uma das infraestruturas mais importantes da nova economia digital. A inteligência artificial parece funcionar de maneira quase invisível. Fazemos uma pergunta e, em poucos segundos, recebemos uma resposta. Por trás dessa aparente simplicidade existem enormes centros de processamento, redes de comunicação, sistemas de refrigeração e um consumo crescente de energia. O Brasil reúne condições favoráveis para receber esses investimentos. Possui uma matriz elétrica predominantemente renovável, posição estratégica, território disponível e uma infraestrutura de internet reconhecida internacionalmente. Não parece razoável, portanto, rejeitar antecipadamente a instalação de data centers no País. Mas também não basta atraí-los oferecendo energia, água, terrenos e incentivos fiscais. A questão mais importante é saber o que esses empreendimentos deixarão para a sociedade brasileira. Quantos empregos permanentes serão gerados? Qual será a contribuição para a formação de profissionais? Haverá transferência de conhecimento? As universidades e empresas nacionais participarão dessa nova estrutura? Qual será o impacto sobre o custo e a disponibilidade de energia para a população e para os demais setores produtivos? Um data center pode representar investimentos, arrecadação e maior segurança digital. Entretanto, se o Brasil oferecer apenas seus recursos naturais e sua infraestrutura, enquanto o conhecimento, as decisões e a maior parte do valor agregado permanecerem no exterior, estaremos apenas reproduzindo, no mundo digital, um antigo modelo de dependência. A discussão, portanto, não deveria se limitar a ter ou não ter data centers. O verdadeiro debate diz respeito às condições em que serão instalados e à forma como serão incorporados a uma estratégia nacional de desenvolvimento tecnológico. O Brasil precisa receber investimentos, mas também formar profissionais, desenvolver pesquisas, fortalecer empresas nacionais e participar da criação das tecnologias que utilizarão essa infraestrutura. Data centers são importantes, mas não constituem, por si sós, uma política de inovação. São a base física da economia digital. O desenvolvimento dependerá da capacidade do País de construir conhecimento, gerar inovação e agregar valor sobre essa base. Mais importante do que hospedar os computadores que movimentarão a inteligência artificial será garantir que o Brasil também participe da produção do conhecimento, das decisões e dos benefícios gerados por ela, conclui Gabriele Di Giulio, de São Roque.



