Em agosto de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encomendou ao Ministério da Fazenda um estudo para viabilizar a adoção da tarifa gratuita de transporte em todo o Brasil. No entanto, conforme demonstram as experiências de municípios que já implementaram a gratuidade, a tarifa zero universal, em vez de solução, é causa de problemas.
Ritmo de adoção perde força
Dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) revelam que, no último ano, apenas 16 municípios adotaram a política de tarifa zero, enquanto no auge desse movimento, entre 2021 e 2023, foram 70. Ao todo, 143 municípios brasileiros oferecem a tarifa zero, mas a política já foi revogada em oito deles, sendo três apenas em 2025: Monte Mor (SP), Picos (PI) e Ubiratã (PR).
São Caetano do Sul restringe gratuidade
São Caetano do Sul (SP), um dos 14 municípios do país com mais de 100 mil habitantes que oferecem tarifa zero atualmente, acaba de restringir o alcance da política adotada no final de 2023. Agora a gratuidade é limitada aos moradores da cidade e a grupos específicos, como pacientes em tratamento de câncer. A tarifa zero fez explodir a demanda por transporte público na cidade, que passou a transportar 80 mil passageiros diários — eram 20 mil antes da gratuidade. A medida, concebida para melhorar a vida da população, acabou produzindo o efeito contrário em um município até então conhecido por ter um dos maiores IDHs do Brasil. Ônibus cada vez mais lotados enfureceram os usuários.
Custo é o maior problema
O sucateamento é apenas um dos problemas da adoção da tarifa zero. O custo, obviamente, é o maior deles. Com exceção de municípios como Maricá (RJ), que pode financiar a gratuidade universal com os royalties da produção de petróleo, “não é fácil colocar essa política em prática na maioria dos municípios brasileiros”, afirma o diretor da FGV Transportes, Marcus Quintella.
Mesmo em municípios como São Paulo, que oferecem a gratuidade apenas aos domingos, o custo da tarifa zero é substancial. Com uma renúncia fiscal estimada em R$ 280 milhões por ano, a tarifa zero elevou a demanda por ônibus na capital paulista em algo entre 20% e 30%.
Recursos poderiam ser usados em outras prioridades
Tanto nos domingos quanto nos dias em que a gratuidade não vale, os paulistanos queixam-se da falta de linhas e de periodicidade adequada dos ônibus. É assim em todo o País, prova de que os recursos que financiam a tarifa zero poderiam ser empregados em outras prioridades. Além de não resolver os problemas que mais afligem a população, como a inexistência de itinerários, a tarifa zero também tende a beneficiar quem já conta com linhas regulares, enquanto nada faz pelos milhões de brasileiros, pobres em sua grande maioria, que nem sequer têm acesso a um ponto de ônibus perto de suas casas. Em vez de insistir na aventura eleitoreira da tarifa universal gratuita, o governo federal faria melhor se não se metesse em uma questão dos municípios e com a qual eles próprios estão aprendendo a lidar de modo mais pragmático.



