Espanha x Argentina na final da Copa: a história que une os dois países
Espanha x Argentina na final da Copa: história que une os dois países

Espanha e Argentina se enfrentam na final da Copa do Mundo de 2026, no MetLife Stadium, em Nova York. É a primeira vez que as duas seleções decidem um Mundial entre si. Em 14 jogos ao longo da história, nunca haviam se cruzado em uma final; o único duelo em Copas foi na fase de grupos de 1966, vencido pela Argentina. A Espanha, campeã em 2010, busca o segundo título; a Argentina, atual campeã e tricampeã, quer o quarto.

A origem do nome Argentina

Argentina deriva do latim argentum, prata — o mesmo metal que batizou o Rio da Prata. No entanto, prata nunca foi encontrada em seu solo. A palavra guarda o eco de um boato: a lenda de uma serra reluzente, guardada por um "rei branco", que fascinou os primeiros europeus. Quando a lenda se tornou realidade, foi a milhares de quilômetros dali, no cerro de Potosí, na atual Bolívia. Essa distância explica muito do que veio depois.

Uma conquista tardia

Os europeus chegaram ao atual território argentino em 1516, com a expedição de Juan Díaz de Solís. O primeiro assentamento, o forte Sancti Spiritus, foi erguido em 1527 e logo abandonado. Buenos Aires, fundada em 1536 por Pedro de Mendoza, não resistiu: falta de recursos e hostilidade dos querandis levaram os espanhóis a abandoná-la em 1541. A região ficou deserta por quase quatro décadas. Diferentemente do México e do Peru, não havia impérios ricos ou minas evidentes. O que mudou o cálculo foi Potosí: a montanha de prata boliviana, descoberta em meados do século 16, tornou o sul do continente estratégico para escoar o metal andino.

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Três correntes, um território

A ocupação efetiva veio de três frentes: a do leste (a partir da Espanha e Assunção), a do oeste (desde o Chile) e a do norte (desde o Alto Peru). A corrente do norte foi a mais produtiva: descendo do Peru para proteger Potosí, os espanhóis fundaram Santiago del Estero (1553), a cidade mais antiga ainda habitada do país, e a partir dela San Miguel de Tucumán, Córdoba, Salta e Jujuy. Da corrente do oeste nasceram Mendoza, San Juan e San Luis. A corrente do leste deu origem a Santa Fé, Corrientes e a segunda Buenos Aires, refundada por Juan de Garay em 11 de junho de 1580.

Cidades em vez de plantações

Os espanhóis apostaram na colonização urbana: fundavam cidades e, a partir delas, organizavam o campo. O traçado seguia o padrão do damero — quarteirões quadrados em torno de uma praça central. A contrapartida foi um mapa cheio de vazios: vastas regiões como o Chaco, os Pampas e a Patagônia ficaram sob controle indígena até meados do século 19.

O trabalho que sustentou a colônia

Nenhuma cidade se sustentava sem mão de obra indígena. Como descreve o historiador Raúl Mandrini em La Argentina aborigen, os povos submetidos foram obrigados a pagar tributo em trabalho ou espécie por meio das encomiendas. A isso somava-se a mita, que enviava homens para as minas. A resistência indígena foi intensa: cerca de um terço das cidades fundadas pelos conquistadores foi destruído. No noroeste, a repressão aos diaguitas se estendeu por mais de um século. A partir do século 17, a Companhia de Jesus instalou missões entre os guaranis, até a expulsão dos jesuítas em 1767.

A ascensão de Buenos Aires

Por quase dois séculos, Buenos Aires foi um porto pobre e proibido. A Espanha exigia comércio apenas com a metrópole, via Lima e Cádis, o que asfixiava o Rio da Prata e alimentava o contrabando. A virada veio com as reformas borbônicas: em 1776, o rei Carlos 3º criou o Vice-Reinado do Rio da Prata. Dois anos depois, o Regulamento e Tarifas Reais para o Comércio Livre abriu o porto de Buenos Aires ao comércio legal. No fim do século, a prata altoperuana respondia por cerca de 80% de tudo o que saía do porto de Buenos Aires. A colônia ignorada passou de forte militar a centro comercial e cabeça de um vice-reinado.

Cinco séculos depois

Neste domingo (19), mais de dois séculos após aquela ruptura, Espanha e Argentina se encontram no gramado. A relação entre os dois países, que um dia se mediu em prata e tributo, agora se decide em 90 minutos. O que está em jogo é uma taça.

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