Tarifa de 25% dos EUA atinge produtos brasileiros a partir desta quarta
Tarifa de 25% dos EUA atinge produtos brasileiros

Uma nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta-feira, 22 de julho, afetando máquinas agrícolas, produtos de madeira, etanol e calçados. A medida intensifica as tensões em uma relação comercial já estressada entre os dois países, conforme noticiado pela Reuters.

Base legal e impacto comercial

A tarifa é a primeira aplicada no âmbito da nova estratégia do governo Trump, que utiliza a Lei de Comércio de 1974 para investigar práticas comerciais consideradas desleais. A invocação generalizada de poderes de emergência pela Casa Branca para impor tarifas contra a maioria dos parceiros globais foi rejeitada pela Suprema Corte dos EUA no início deste ano.

De acordo com estimativas do governo brasileiro e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a nova tarifa ameaça entre US$ 7 bilhões e US$ 11 bilhões em exportações brasileiras para os EUA, o que equivale a cerca de 18% a 26% do total exportado pelo Brasil ao mercado americano. Para amenizar o impacto interno, os EUA isentaram várias importações importantes, como carne bovina, café, aeronaves e peças de avião.

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Ironia nas relações bilaterais

O Brasil é o primeiro país a ser afetado por uma tarifa após uma investigação de um ano nos termos da Seção 301 sobre práticas comerciais desleais, embora os EUA mantenham consistentemente um superávit comercial com o Brasil. “Essa é a ironia das medidas dos EUA”, disse Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil, referindo-se à balança comercial bilateral. Washington argumentou que as tarifas são necessárias para combater práticas como o sistema de pagamentos Pix, o acesso ao mercado de etanol e o desmatamento ilegal.

As tarifas entram em vigor apenas dois dias antes do vencimento de uma taxa global temporária de 10% e após uma decisão da Suprema Corte que derrubou tarifas anteriores de 50% impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros, forçando exportadores a buscar novos mercados.

Setor calçadista sob pressão

Para muitos setores, os ajustes já têm sido dolorosos. A indústria calçadista brasileira, que tem os EUA como seu principal mercado externo, revisou para baixo suas perspectivas de exportação para o ano, prevendo agora uma queda de 7,1%, em comparação com a previsão anterior de recuo de 3,6%. Os EUA compram um em cada cinco sapatos exportados do Brasil, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).

“Não existe outro mercado capaz de substituir os EUA”, disse Toni Hajel, proprietário da fabricante e exportadora TH Shoes e presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (SP). Ele afirmou que cerca de 40% das exportações da região, ou aproximadamente 650 mil pares por ano, são vendidos para os EUA. As novas tarifas tornarão essas vendas inviáveis, forçando os produtores a demitir trabalhadores, a menos que o Brasil renegocie as tarifas ou consiga uma isenção para o setor.

Consequências de longo prazo

Economistas alertam que a incerteza criada pelas medidas sucessivas e pelas isenções parciais pode ter consequências que vão muito além das perdas comerciais imediatas. “Isso afeta a confiança”, disse Gustavo Pessoa, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, que viajou a Washington neste mês para se manifestar contra as tarifas em uma audiência pública. Pessoa destacou que as tarifas prejudicarão as relações comerciais de longo prazo para ambos os lados: compradores norte-americanos podem temer que mais produtos brasileiros sejam alvos, enquanto exportadores brasileiros podem deixar de investir em cadeias de suprimento voltadas para o mercado dos EUA.

Dados da CNI mostram que as tarifas já prejudicaram o comércio bilateral, com as exportações brasileiras para os EUA caindo US$ 2,6 bilhões, ou 13%, no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025, puxadas principalmente por quedas em bens industriais como produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera e óleos de petróleo.

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Nova investigação e incerteza

O Brasil também faz parte de uma investigação separada dos EUA sobre alegações de trabalho forçado, que se encerra em 24 de julho, o que pode levar à aplicação de mais 12,5% de tarifa, elevando potencialmente as tarifas totais sobre alguns produtos para 37,5%. A investigação em andamento deixou as autoridades brasileiras no limbo. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Rosa, afirmou recentemente que não tem ideia de como a penalidade será aplicada, embora espere que ela seja confirmada. “Nós vamos ficar sabendo se vai ser cumulativo ou não. Se vamos ter 25% mais 12,5% ou se vamos ter exclusão”, disse ele a repórteres em Brasília.