Professor da FGV se inscreve em audiência dos EUA sobre PIX
Professor da FGV se inscreve em audiência dos EUA sobre PIX

Até agora, apenas um brasileiro se inscreveu para participar da audiência pública que pode influenciar os próximos rumos da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. Gustavo Pessoa, professor de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador de riscos no sistema financeiro, é o único representante do país inscrito no processo conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).

A audiência e o contexto

A audiência está prevista para 6 de julho e antecede a decisão final do governo dos EUA sobre possíveis medidas comerciais. Empresas, associações, governos e outros interessados poderão apresentar seus posicionamentos. O processo investiga práticas relacionadas a produtos brasileiros, incluindo desmatamento ilegal, pirataria, falhas na aplicação de leis anticorrupção e o PIX — sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, que se tornou central na apuração.

As inscrições seguem abertas até 22 de junho. As manifestações enviadas passam a integrar oficialmente o processo e podem influenciar os próximos desdobramentos.

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Motivação do professor

Pessoa afirma que decidiu se inscrever porque considera que o debate sobre o PIX deixou de tratar apenas de um meio de pagamento e passou a envolver a infraestrutura do sistema financeiro. Para ele, o processo exige explicações técnicas e espaço para diferentes pontos de vista. "É importante que aparecesse alguém de forma independente para tentar explicar isso de uma forma um pouco melhor e até apontar uma forma de resolver a questão no campo técnico", disse.

Entrevista com Gustavo Pessoa

O que motivou sua inscrição?

Gustavo Pessoa: Sou professor de Economia na FGV e pesquiso falhas sistêmicas no sistema financeiro. O PIX é muito sensível: hoje, mais de 54% de todas as transações no Brasil são via PIX, que transaciona mais de duas vezes o PIB do Brasil — cerca de R$ 25 trilhões por ano. A discussão deixou de ser apenas sobre meio de pagamento e virou infraestrutura, criando potencial risco sistêmico. Além disso, há um possível conflito de interesse entre o Banco Central como regulador e provedor do serviço. Quis trazer uma visão técnica e independente, já que a discussão é majoritariamente política.

Problemas do BC como regulador e operador?

O Banco Central assumiu uma nova função ao oferecer serviço direto aos cidadãos, competindo com outros meios de pagamento. Ele precisa dar transparência, espaço para competição e backup contra falhas, como qualquer operador. Acredito que o BC tenha capacidade para isso, mas precisa demonstrar governança e transparência.

O que é o "teste de neutralidade"?

Proponho um teste com cinco questões: acesso igualitário ao PIX para todas as empresas; interoperabilidade técnica (APIs, cibersegurança); transparência em taxas e regras; proteção de dados (comparável à exigida de operadoras de cartão); e integridade dos dados (suporte, prevenção à lavagem de dinheiro, compliance). É preciso verificar se o BC atende aos mesmos padrões que exige de outros.

Compromissos para evitar tarifas?

O processo dos EUA parece sério e espera respostas. Apresentar evidências de transparência, integração e não discriminação seria bem recebido. Sugiro criar um fórum de comunicação entre BC, Ministério da Fazenda e Departamento de Comércio dos EUA para tratar dessas questões.

Por que o PIX é alvo e não o UPI indiano?

O Brasil tem sistema bancário e realidade social diferentes, e o sucesso do PIX é maior. Somos a nação mais parecida com os EUA em meios de pagamento, o que permite comparações diretas, diferentemente da Índia ou China. A atenção é geopolítica e geoestratégica.

Expectativas para a audiência?

Como pesquisador, meu dever é expor o que estudei. Se for chamado para o hearing, irei com prazer. É importante usar todos os canais oficiais para defesa, pois temos instituições sólidas e servidores qualificados. Não podemos ficar na retórica; precisamos apresentar substância técnica.

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