Nos bastidores do Palácio do Planalto, uma avaliação tem se consolidado entre aliados do presidente Lula: a ausência de encontros com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não é por acaso. Pelo contrário, reflete uma combinação de ressentimentos pessoais, cálculo político e uma decisão estratégica de não fortalecer o nome do parlamentar para os próximos ciclos eleitorais.
Um distanciamento que não é de hoje
Eleito para o comando do Senado em fevereiro de 2023, Alcolumbre construiu uma trajetória de independência que, na avaliação dos aliados de Lula, desgastou a relação. No início do terceiro mandato do petista, havia a expectativa de que o senador fosse um parceiro confiável para aprovar as pautas prioritárias do governo no Congresso. No entanto, o que se viu foi uma condução autônoma da agenda legislativa, com espaço para proposições de partidos de oposição.
Segundo relatos de integranes do chamado núcleo político do Planalto, a gota d'água veio em votações que contrariaram interesses do governo, como a instalação de CPIs e a tramitação de projetos que reduzem o poder de ministérios. A postura de Alcolumbre, de se manter como um árbitro equilibrado, foi interpretada por Lula e seus auxiliares como uma sinalização de que ele não seria um aliado orgânico.
A estratégia de manter distância
Em conversas reservadas, auxiliares presidenciais afirmam que a falta de reuniões bilaterais é uma escolha deliberada. A lógica é dupla: demonstrar insatisfação sem abrir uma crise institucional e evitar que Alcolumbre ganhe capital político em um momento em que o governo quer concentrar as atenções na sua base aliada.
Como mostrou o blog, Lula tem priorizado encontros com líderes partidários e presidentes da Câmara e do Senado em momentos de pautas energéticas, como a reforma tributária e o marco fiscal. E, mesmo nessas ocasiões, a interlocução com Alcolumbre é feita por meio de canais técnicos, e não com uma reunião demorada no terceiro andar.
Assessores divergem
Há quem pondere que o distanciamento é um erro. Um auxiliar graduado, que pediu anonimato, baixou o tom: “O Senado tem um ritmo próprio e Alcolumbre conhece as engrenagens da casa. Se o governo quer aprovar matérias, um canal direto é necessário. Mas o presidente parece enclausurado.” A declaração, no entanto, não encontra eco majoritário no Planalto, onde o coro é de que “não se trata de guerra, mas de gestão de biografias”.
A leitura predominante entre os que defendem a postura presidencial é que Alcolumbre, ex-presidente da Comissão Mista de Orçamento e senador ligado ao centrão, precisa construir sua viabilidade eleitoral sem o selo do Planalto. Assim, ao não recebê-lo, Lula evita alimentar esse projeto.
Impacto institucional
Esse clima esfria a relação entre os Poderes, mas, até agora, não travou a pauta do Senado. Desde 2023, o governo conseguiu aprovar medidas importantes, mesmo com a falta de proximidade entre as lideranças. Porém, a tensão latente pode aumentar com a volta das votações de projetos da pauta ambiental e da questão da isenção do Imposto de Renda, que exigem articulação fina.
Para aliados de Lula, a expectativa é que o tempo corrija o desconforto. “Esse ciclo vai passar. Alcolumbre tem mandato até 2027 e o presidente tem a faca do veto e da caneta”, resumiu um deputado governista. A percepção é de que o atual afastamento é um fenômeno transitório, mas que ainda pode render capítulos antes do fim do ano.



