O Partido Liberal (PL) está encontrando resistência entre seus próprios aliados no Nordeste para endossar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Apesar de ter construído alianças estratégicas na região, a legenda enfrenta dificuldades para convencer líderes locais a atuarem como cabos eleitorais do senador. Cientistas políticos ouvidos pelo g1 avaliam que pré-candidatos aos governos estaduais no Nordeste evitam assumir compromisso explícito com a campanha de Flávio devido ao alto custo político que isso representa, especialmente após a vitória esmagadora de Lula (PT) na região em 2022, quando obteve 69,3% dos votos.
Marcos Paulo Campos, do Observatório da Política do Nordeste, explica que as alianças do PL não estão garantindo o empenho dos aliados na campanha nacional. "Essas alianças não estão garantindo o prestígio dos seus aliados em favor do Flávio Bolsonaro. Isso significa que eles não vão se empenhar na campanha nacional. Não vão buscar identificação. Por isso, há efetivas restrições políticas ao crescimento da candidatura bolsonarista no Nordeste", afirma.
Pesquisa Quaest mostra vantagem de Lula no Nordeste
A pesquisa Quaest mais recente, de junho, confirma que o Nordeste é a região onde Lula registra a maior vantagem sobre Flávio Bolsonaro, tanto no primeiro quanto no segundo turno. No cenário nacional, Lula tem 39% das intenções de voto contra 29% de Flávio no primeiro turno. No Nordeste, a diferença se amplia: Lula tem 54%, contra 25% de Flávio. No segundo turno, em todo o Brasil, Lula pontua 44% e Flávio, 38%. Já no Nordeste, o petista atinge 61% ante 27% do presidenciável do PL. Essa tendência é observada desde fevereiro, quando o cenário começou a ser testado.
Ciro Gomes e o desafio no Ceará
O principal exemplo das resistências regionais a Flávio Bolsonaro no Nordeste é Ciro Gomes (PSDB), que lidera as pesquisas para o governo do Ceará em uma aliança com o PL e o União Brasil. Levantamento da Quaest de abril mostra Ciro com 46% em um eventual segundo turno contra o governador Elmano de Freitas (PT), que aparece com 35%. Antes de confirmar a pré-candidatura, Ciro respondeu com outra pergunta ao ser questionado sobre apoiar Flávio: "Por que eu apoiaria um camarada que não é do meu partido?" Já como pré-candidato, Ciro passou a defender que os partidos mantenham liberdade para adotar posições distintas na disputa presidencial, e apoia a candidatura do deputado federal Aécio Neves à Presidência. "Nós temos a obrigação de apoiar o Aécio", declarou em evento recente.
A negociação para o apoio do PL a Ciro foi marcada por uma briga interna na família Bolsonaro. Em dezembro, Michelle Bolsonaro passou a criticá-lo publicamente enquanto lideranças locais do PL conversavam com o ex-governador, o que interrompeu a articulação momentaneamente. A chapa de Ciro Gomes terá o ex-prefeito de Teresina Roberto Cláudio (União Brasil) como vice-governador. Para o Senado, as pré-candidaturas são de Capitão Wagner (União Brasil) e Alcides Fernandes (PL), pai do deputado André Fernandes. André Fernandes afirmou que o fato de Ciro se posicionar como adversário do PT tende a reduzir a concentração de votos tradicionalmente obtida pelo partido de Lula no Ceará, o que "poderá abrir espaço para o crescimento eleitoral do senador Flávio Bolsonaro". A cientista política Monalisa Torres avalia que o grupo é competitivo, mas que a presença de Flávio não será favorável à candidatura do tucano. "Quem vai servir de palanque para Flávio no Ceará será Alcides Fernandes", diz. André Fernandes confirmou: "Alcides, bem como toda a estrutura partidária do PL no Ceará, atuará em defesa da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, pedindo votos exclusivamente para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro."
Pragmatismo do PL e comparação com PT em 2018
Marcos Paulo Campos avalia que a direita vive seu momento de maior organização no Nordeste, apesar das dificuldades para transformar aliados em cabos eleitorais. Segundo ele, a estratégia do PL foi abrir mão de protagonismo em determinados estados para integrar alianças mais amplas. "O PL topou abrir mão de liderar para participar de alianças, mesmo quando isso significa conviver com aliados que não se comprometem com a candidatura presidencial. Tem alguns palanques, mas aceitando um regime de submissão", afirma. O especialista compara o pragmatismo do PL com o do PT em 2018, quando o partido precisou manter alianças com grupos que haviam apoiado o impeachment de Dilma Rousseff.
Raquel Lyra se distancia do PL em Pernambuco
Outro exemplo de distanciamento estratégico é a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), pré-candidata à reeleição. Na última pesquisa Datafolha, Raquel aparece com 51% das intenções de voto, contra 44% do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB). Embora tenha vencido em 2022 com o apoio de nomes como o ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes Anderson Ferreira e Gilson Machado, ex-ministro de Jair Bolsonaro, Raquel Lyra sempre buscou se aproximar do presidente Lula e não deu espaço relevante para nomes bolsonaristas em seu governo, afirma a cientista política Priscila Lapa. Em maio, a governadora disse que Pernambuco "não tem dono" e destacou sua boa relação com Lula. "Conseguimos parceria quando muitos diziam que tinham o monopólio [da atenção e do apoio] do presidente da República", afirmou Lyra. A pré-candidata ainda não anunciou oficialmente a chapa, mas sinalizou aliança com o União Brasil. A expectativa é que a vice seja Priscila Krause (PSD). Para o Senado, os nomes são Miguel Coelho (União Brasil) e Túlio Gadêlha (PSD). Segundo Lapa, a falta de espaço das lideranças do PL na gestão de Lyra e o rompimento entre Gilson Machado e Anderson Ferreira enfraqueceram o partido. Gilson migrou para o Podemos em fevereiro. "O PL não conseguiu constituir um palanque competitivo para as eleições de 2026. Porém, pode ter um ótimo desempenho na eleição proporcional, tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal", avalia. Em nota, o diretório estadual do PL em Pernambuco confirmou que o foco será eleger deputados, mas não descartou a apresentação de nomes para o governo estadual e o Senado. "A expectativa é eleger entre quatro e cinco deputados federais e entre cinco e seis deputados estaduais, consolidando uma das maiores bancadas do estado. Paralelamente, o PL mantém diálogo permanente com lideranças políticas em Pernambuco", diz a nota.
Palanque forte na Paraíba
Na Paraíba, o PL tem um dos palanques mais estruturados do bolsonarismo no Nordeste, segundo o cientista político Fábio Machado. O partido articulou a pré-candidatura do senador Efraim Filho para governador e do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga para o Senado. Efraim deixou o União Brasil e se filiou ao PL em março, em evento com a presença de Flávio Bolsonaro. Segundo Machado, essa filiação foi tratada como parte da estratégia para dar capilaridade à candidatura presidencial no Nordeste. "A visita de Flávio à Paraíba sinalizou essa tentativa de nacionalizar a disputa estadual e de transformar o palanque paraibano em uma vitrine regional do PL", diz Fábio Machado. Ele avalia, porém, que o ambiente eleitoral da Paraíba segue favorável a Lula, mesmo com a oposição tendo nomes competitivos. "A campanha nacional deve aparecer com força nos atos do PL e na comunicação das lideranças bolsonaristas, mas a tendência é que muitos aliados priorizem a eleição estadual e adotem uma estratégia de aproximação controlada, sem necessariamente transformar Flávio no centro da campanha local", disse Machado. Ex-ministro de Bolsonaro na pandemia, Queiroga afirmou ao g1 que o PL da Paraíba tem estrutura organizada, presença nos municípios, lideranças competitivas e militância engajada na campanha presidencial. "O PL defenderá seu candidato à Presidência da República com convicção e lealdade, ao mesmo tempo em que trabalhará para ampliar sua representação nos estados. Não vejo contradição entre fortalecer o projeto nacional e construir uma alternativa política para a Paraíba."
Dificuldades no Piauí, Maranhão e Bahia
O cenário é menos favorável para o PL nos três estados onde Lula obteve vitórias amplas em 2022: Piauí (76,86% dos votos), Bahia (72,12%) e Maranhão (71,14%). O cientista político Vitor Sandes avalia que Flávio Bolsonaro terá dificuldade para encontrar um palanque no Piauí e um aliado competitivo disposto a defender sua candidatura. O governador Rafael Fonteles (PT) é franco favorito à reeleição. "É realmente muito difícil ter oposição forte no estado contra um grupo vinculado a Lula e contra Rafael, que tem tido alta aprovação desde o início do seu governo", diz. O principal opositor de Fonteles é o ex-prefeito de Floriano Joel Rodrigues (PP), colega de partido do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro. Nem ele, porém, apoia abertamente Flávio. Os dois senadores tiveram seus nomes ligados ao escândalo do Banco Master, devido à proximidade com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. Em maio, em entrevista à TV Clube, Nogueira evitou defender Flávio ao comentar a investigação: "Eu não estou aqui para defender nem acusar o senador Flávio. Ele tem que ser investigado, como todos, como eu estou sendo. E, se for inocente, que seja, lógico, reconhecida a sua inocência. Se for culpado, tem que pagar exemplarmente", afirmou.
Na Bahia, o PL decidiu integrar a chapa liderada pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) como pré-candidato ao governo, com o presidente estadual do PL, João Roma, disputando uma vaga ao Senado. Havia expectativa de que ACM Neto declarasse apoio a Flávio no primeiro turno, mas ele já sinalizou que ficará ao lado de Ronaldo Caiado (PSD). "Tenho uma relação histórica com Caiado, de mais de 25 anos de amizade, o que nos aproxima, o que torna muito difícil não estar com ele", disse em março. Segundo o cientista político Cláudio André de Sousa, o resultado é um cenário desfavorável para a campanha presidencial do PL na Bahia. "O palanque de Flávio está comprometido na Bahia. João Roma deve abrir espaço, mas será muito difícil fortalecer essa candidatura", diz. Ao g1, Roma disse que o palanque do PL na Bahia não está estremecido e que o partido construiu uma aliança sólida para enfrentar os 20 anos de hegemonia do PT. "O palanque de Flávio está muito forte. Eu sou pré-candidato ao Senado e tenho levantado a bandeira. Pode ter certeza que Flávio terá na Bahia um desempenho maior do que o presidente Bolsonaro em 2022", afirmou. No Maranhão, a cientista política Ananda Marques afirma que o partido não dispõe de um palanque forte para a candidatura bolsonarista, mas a história é diferente quando o assunto são as eleições proporcionais. "No Legislativo, a gente tem um histórico no Maranhão de deputados federais e estaduais de partidos mais à direita", explica.
PL perde lideranças em SE e AL, mas ganha no RN
A perda de lideranças do PL para outras siglas enfraqueceu o partido em Sergipe e Alagoas. A coordenadora do Laboratório de Estudos do Poder e da Política da Universidade Federal de Sergipe, Fernanda Petrarca, afirma que a decisão da direção nacional de entregar o comando estadual do PL ao deputado Rodrigo Valadares provocou a saída de lideranças importantes, como a prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, e o ex-prefeito de Itabaiana Valmir de Francisquinho, que migraram para o Republicanos. Na avaliação da pesquisadora, a fragmentação da oposição beneficia o grupo do governador Fábio Mitidieri (PSD), candidato à reeleição e aliado de Lula. "O campo conservador chega a 2026 dividido em dois eixos. As lideranças tentam maximizar suas estratégias individuais ancoradas na estética da comunicação digital, que continua mobilizando bases via redes sociais, mas não substitui a coordenação eleitoral", diz Petrarca. Procurado, o PL de Sergipe não respondeu ao contato.
Em Alagoas, a cientista política Luciana Santana considera que o PL perdeu a oportunidade de construir um palanque robusto após a saída do ex-prefeito de Maceió JHC para o PSDB. Hoje, o principal nome identificado com Flávio Bolsonaro no estado é o deputado federal Alfredo Gaspar, presidente estadual do PL e pré-candidato ao Senado. "Não vejo uma declaração tão explícita e forte de apoio a Flávio Bolsonaro de outras lideranças que efetivamente possa fazer diferença", afirma Luciana Santana. Em nota, Gaspar disse que está fazendo o seu dever de casa e construiu uma candidatura forte ao Senado, montou chapas competitivas para deputado estadual e federal e seguirá trabalhando até as convenções para apresentar um nome ao governo do estado. "A candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência não depende de acordos de ocasião. [...] Não é uma candidatura que se mede por negociatas políticas ou por práticas de voto de cabresto, mas pela confiança e pelo apoio livre dos brasileiros", disse o presidente do PL de Alagoas.
Já no Rio Grande do Norte, a situação é oposta. O PL ampliou sua presença ao atrair o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias, que deixou o Republicanos em março para concorrer ao governo do estado. No entanto, segundo o cientista político Alan Lacerda, o partido ainda não conseguiu consolidar um arco amplo de alianças no estado. O pré-candidato a vice na chapa de Dias, Babá Pereira, também é do PL, assim como um dos nomes para o Senado, coronel Hélio. Embora o senador Rogério Marinho, que é do estado, coordene a campanha de Flávio Bolsonaro nacionalmente, Lacerda acredita que a eleição estadual será marcada por temas locais. "Álvaro deve pegar o voto da direita radical, mas o centro do discurso vai ser o estado", avalia. Em nota, o PL do Rio Grande do Norte disse que existe uma forte aliança representando a direita no estado, com a presença do Podemos, além do Novo e do PSDB. "O pré-candidato a governador Álvaro Dias já faz a defesa da pré-candidatura do futuro presidente Flávio Bolsonaro e estará na campanha eleitoral dedicado integralmente ao projeto de salvar o Brasil e o RN do PT", diz a nota.



