Partidos políticos perdem quase 1,5 milhão de filiados jovens em 16 anos
Partidos perdem 1,5 milhão de filiados jovens em 16 anos

Um levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), revelou que, nos últimos 16 anos, os partidos políticos brasileiros perderam quase 1,5 milhão de filiados jovens. A baixa filiação partidária entre jovens não é novidade no Brasil, nem um problema em si. Historicamente, a maioria dos eleitores entre 16 e 34 anos nunca se filiou a nenhuma legenda. A novidade está no refinamento da análise proporcionada pelo estudo e pelas entrevistas com jovens eleitores publicadas pelo Estadão.

Diagnóstico dos jovens sobre os partidos

Mais importante do que medir o grau de afastamento dos jovens da política partidária é refletir sobre o diagnóstico que eles próprios fazem. Para esse público, os partidos deixaram de representar interesses sociais legítimos para se concentrar em interesses corporativistas ou servir como fóruns de afirmação de identidades tribais.

Problema institucional

O problema é de ordem institucional. Partidos não são meros acessórios da democracia representativa; são organizações da sociedade civil que estruturam e defendem, pacificamente, os múltiplos interesses em jogo na sociedade. A Constituição determina a filiação partidária como condição de elegibilidade. Quando essas organizações deixam de cumprir sua função de representação social e passam a operar como empresas a serviço de suas cúpulas ou como instâncias de estímulo a hostilidades grupais, o problema não é a quantidade de filiados, mas a qualidade da representação. A raiz do problema da falta de representatividade não está nos jovens, mas nos próprios partidos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Financiamento público e falta de esforço

No Brasil, os partidos têm vida fácil. Nunca precisaram cortejar apoiadores para sobreviver por meio de doações privadas. Financiam-se com os bilhões dos Fundos Partidário e Eleitoral, recursos dos contribuintes que garantem sua sobrevivência independentemente de esforço. Essa rede de segurança permitiu que os partidos se dedicassem menos a formar quadros e ouvir demandas e mais a proteger arranjos internos de poder. Um dos jovens entrevistados usou a metáfora de legendas que funcionam como “cartórios”, com pouca vida orgânica, baixa renovação de lideranças e escassa democracia interna – entidades analógicas com dificuldade para dialogar com uma geração digital.

Polarização e partidarismo exacerbado

A polarização afetiva transformou a filiação partidária em grito de torcida organizada. Para os mais jovens, aderir a um partido deixou de significar apoio a um programa de governo para virar um rótulo identitário. Essa lógica é a antítese da política, que privilegia a construção de consensos em torno do interesse público por meio do diálogo. O partidarismo exacerbado transforma legendas em facções e adversários em inimigos. Os jovens mostraram maturidade ao perceber isso, o que é constrangedor para as lideranças que instrumentalizam as siglas e negam a convivência democrática com as diferenças.

Futuro dos partidos

Sem abrir suas estruturas internas, renovar lideranças, arejar ideias e disputá-las na esfera pública com civilidade e espírito republicano, os partidos continuarão perdendo o único bem que nenhuma verba orçamentária pode comprar: a adesão espontânea de quem se sente representado. Não bastam ações pontuais para aumentar a filiação jovem. Os partidos precisam recuperar sua razão de existir: a capacidade de representar interesses legítimos de setores da sociedade. O resto virá da confiança que inspirarem nos eleitores, sejam velhos ou jovens.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar