A Nike não quer Endrick na seleção?
A teoria da conspiração da vez se baseia em duas alegações frágeis: o atacante é patrocinado pela New Balance, e o contrato firmado pela Nike com a CBF em 1996. Crédito: Edição: Júlia Pereira
Por que Ancelotti não põe Endrick para jogar? O brasileiro tem o hábito — compreensível, até certo ponto — de evitar as explicações simples para se desgastar com teorias da conspiração. Não é que o técnico tenha preferência por outro atacante, é a Nike que interfere na escalação para prejudicar Endrick.
Não faz nenhum sentido, adianto desde já. Primeiro, por ser ilógico. Se a Nike se beneficia do resultado esportivo da seleção brasileira — quanto mais jogos disputados, maior exposição para a marca —, por que ela prejudicaria o time? Segundo, porque é um insulto a ene profissionais, entre eles o próprio Ancelotti.
Leia também
Ronaldo vê Endrick atrás na hierarquia na Copa, mas confia no atacante: ‘Vai ter a oportunidade’
Copa 2026: Ancelotti repete roteiro do Real Madrid com Endrick no banco da seleção
Fica ainda mais evidente a fragilidade da teoria quando se entende os argumentos dela. A Nike vetaria Endrick no time porque o atacante veste chuteiras de uma concorrente, a New Balance, em vez de ter assinado um contrato com os americanos. “Quem paga o show escolhe a banda”, dizem os espertos.
Endrick comemora gol. Foto: reprodução @brasil via Instagram
Depois, e ainda pior, esses mesmos relembram o contrato que a CBF assinou com a fornecedora em 1996 para sustentar a conspiração. Esse documento foi tornado público em 1999, por força da CPI da CBF/Nike, que causou um furdunço na época e acabou em pizza — mas deu acesso a certas informações confidenciais.
O negócio era o seguinte: a Nike queria fazer um tour de jogos amistosos entre as seleções patrocinadas por ela no mundo. Segundo o contrato com a CBF, ela se dispunha a arcar com todos os custos para a organização dessas partidas, e em contrapartida ela colocava algumas regras para valorizá-las comercialmente.
Havia previsão de 50 amistosos a serem realizados durante o período do contrato, no mínimo três por ano, todos agendados fora do Brasil. Havia também a regra de que a seleção deveria jogar com pelo menos oito titulares em cada amistoso.
E por quê? Porque um amistoso entre Brasil e Curaçao, no contexto dos anos 1990, com um monte de jogadores reservas ou nem sequer escaláveis, a seleção não daria o retorno que a Nike esperava com tais amistosos. Então ela pôs em contrato, repito, que deveria haver pelo menos oito titulares em cada partida.
Exigir a participação de titulares em amistosos de uma turnê comercial é muito diferente de interferir na escalação, nome por nome, em competições oficiais. Mas quem está a fim de confundir para viralizar não liga para fatos e contexto.
Teorias da conspiração se desmontam com poucas perguntas. Quanta gente é necessária para fazê-la acontecer? Quanto mais indivíduos, mais difícil manipular e impedir vazamentos. Existe alguma explicação simples para o problema? Geralmente, ela resolve. Endrick não joga porque o Mister tem outro plano.



