Por que alguém que nunca pisou em um estádio, nunca acompanhou uma partida inteira e não reconheceria Neymar numa fila de supermercado nutriria tamanha antipatia pelo camisa 10? O sentimento, descubro, não é pessoal: é nacional. Neymar, o Macunaíma da Vila Belmiro, condensa em sua trajetória tudo o que a minha geração — nascida no fim dos anos 1970 — deveria ter evitado e não evitou.
Nascemos quando o país se preparava para deixar a ditadura para trás. A redemocratização veio, a moeda se estabilizou, o mundo vivia um ciclo de paz e demanda por quase tudo aquilo que produzíamos. O cenário não poderia ser mais favorável. Deveríamos ter entregue às próximas gerações um Brasil desenvolvido, igualitário e seguro. Em vez disso, colecionamos fracassos que se assemelham, um a um, aos tropeços do ex-jogador.
Talento natural sem cultivo: a farra do desperdício
Quem viu Neymar surgir no Santos sabe que ele tirou a sorte grande. Nasceu com um talento raríssimo no esporte mais popular do mundo. O Brasil também nasceu abençoado: temos commodities, energia limpa, população multiétnica, litoral gigantesco e terras raras. Mas talento é apenas potencialidade. Sem investimento, vira nada. E o Brasil despreza a educação infantil, a base de tudo. Transformamos petróleo em petrolão, democracia em mensalão. O menino Ney também não cultivou o próprio dom: jogou ao lado de Messi, mas não aprendeu nada. Preferiu as baladas, as traições, as decisões mercenárias — saiu do Barcelona para o PSG e depois despencou para o Al-Hilal. Faltou a dezenas de jogos por lesão, mas jamais faltou aos camarotes da noite.
A semelhança não é coincidência. O desperdício de dons naturais é a primeira das nossas convergências. No país que recebeu tanta fartura da natureza, a cultura do jeitinho e do mais fácil venceu a cultura do trabalho de formiga. E o resultado está aí: potências emergentes nos ultrapassam enquanto patinamos entre escândalos e promessas não cumpridas.
O presente não espera o futuro: a síndrome da cigarra
A segunda semelhança é a incapacidade de fazer sacrifícios hoje para colher amanhã. Os números são impiedosos. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) para 2025, o Brasil poupa apenas 13,8% do Produto Interno Bruto (PIB), ocupando a 148ª posição entre 180 países e territórios avaliados. A China poupa 42%, a média dos países em desenvolvimento é 32% e a União Europeia, 24%. Poupança é a matéria-prima do investimento: quando tudo é gasto no presente, não sobra capital para o futuro, e o país torna-se refém do socorro externo.
O governo é o pior dos perdulários. A dívida pública estava em 38% do PIB quando Neymar nasceu, em 1992; hoje, ronda os 80%. Mas a doença é compartilhada por governantes e governados: 81% dos lares brasileiros têm algum tipo de dívida e 30% das famílias estão inadimplentes. O naturalista Saint-Hilaire temia que a saúva acabasse com o Brasil, mas o nosso problema real é o excesso de cigarras — as que cantam hoje e não guardam para o inverno. Neymar é a cigarra-mor: mansões, barco, jatinho, helicóptero e um apartamento em Balneário Camboriú são a ostentação cafona de quem vive apenas o agora. O imediatismo também se reflete na condução da própria vida do jogador, sem poupar-se dos prazeres da carne, da bebida e, a julgar pelo novo perímetro, também da mesa.
Ética: o contrato não é papel, é intenção
A terceira e mais grave convergência é a falta de ética. Neymar acumula rolos desde o início da carreira. Foi processado pelo investidor que detinha quase metade do seu passe na época do Santos, investigado por fraude fiscal na Espanha, autuado pela Receita Federal do Brasil, acusado de estupro e de crimes ambientais. O Brasil também trata as regras como sugestões. Prazos estouram, contratos são descumpridos, promessas viram fumaça. O "achado não é roubado" virou filosofia de vida, e só percebemos o tamanho do absurdo quando viajamos para o exterior e notamos que ali as coisas funcionam de outro jeito. Não por acaso, a corrupção e o atraso se retroalimentam, e a confiança no futuro vira artigo de luxo.
Ética não é detalhe: é o alicerce de qualquer nação que queira crescer. Sem ela, o talento definha, a poupança murcha e o egoísmo floresce. Neymar é o espelho mais visível dessa tríade perversa.
Egoísmo: o teatrinho do um contra todos
A última peça do pacote é o egoísmo. Neymar encerrou sua passagem pela Copa fazendo um showzinho diante do goleiro norueguês, enquanto o time precisava de atitude e velocidade para buscar o resultado. Quem joga pelo coletivo corre para repor a bola; quem joga por si mesmo encena um drama. Dias depois, estava em Las Vegas, disputando um campeonato de pôquer, como se o mundo não tivesse acabado ali. O Brasil é a terra do salve-se quem puder, da caixa de som na praia, do carteiraço, da filantropia quase simbólica, das emendas do relator e das bitucas no chão. Neymar não é a causa desse estado de coisas: é mais um sintoma, talvez o mais reluzente.
O arco da carreira de Neymar acompanha o do Brasil da minha geração: saímos da penúria com uma exuberância promissora e chegamos à frustração e ao desalento. A boa notícia é que países não se aposentam nem morrem. Resta a chance de reação, sempre. Talvez a ascensão de Vini Jr. — jogo bonito e luta antirracista corajosa fora dos campos — seja um sinal de que ainda há tempo. Neymar ficará no passado como símbolo do que não devemos ser; o futuro pertence a quem honra o talento com trabalho, ética e coletividade.



