Por que jogadores brasileiros não devem ganhar Copa por Neymar
Jogadores não devem ganhar Copa por Neymar

Foi no estádio do meu Corinthians que vi, presencialmente, o gol mais bonito da minha vida. Ali, a seleção brasileira enfrentou o Paraguai, a quem venceu por 3 a 0, pelas eliminatórias da Copa de 2018. O segundo tento marcado naquele jogo, que garantiu a classificação antecipada do Brasil para o Mundial, jamais sairá da minha memória.

Ainda na área de defesa, Neymar recebe a bola e sai em disparada pela lateral deixando uns tantos paraguaios para trás antes de chutar e marcar um golaço. Pouco antes, ele havia perdido um pênalti, algo raríssimo até na fase atual. Comemorar, em plena Itaquera, o belíssimo gol de um craque eternamente ligado ao rival Santos, mas que naquele momento defendia o Brasil, foi especialmente prazeroso.

Admiradora confessa de Neymar

Espero que esteja claro que sou insuspeita de não gostar de Neymar, um dos maiores que já vi jogar. Mas isso não me impede de achar extremamente desconfortante as imagens de um Ney ajoelhado em campo sendo consolado pelos companheiros de time após o Brasil ser eliminado da Copa pela Noruega.

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Além do pesado luto que sempre me invade quando a seleção sai do mundial antes do que eu gostaria, ou seja, antes de ser hexa, hepta e por aí vai, a derrota para os noruegueses me deixou com a sensação de que nem mesmo sofrer os demais jogadores brasileiros podem. Antes, precisam ocupar-se da tristeza do maior craque, talvez o único, que o Brasil produziu na última década.

Roteiro sem sentido

As cenas melancólicas daquele fim de jogo são na verdade o epílogo de um roteiro totalmente sem sentido que virou missão para os companheiros de Neymar na seleção. Eles precisam ganhar a Copa não por eles, não pelo Brasil, mas por Neymar. Como supostamente foi isso o que aconteceu com a Argentina de Lionel Messi, de alguma forma inseriu-se na mente dos jogadores do Brasil que eles têm a obrigação de fazer o mesmo por Ney.

Se a Argentina inteira realmente fez um pacto para ganhar a Copa de 2022 com o intuito exclusivo de dar a Messi algo que achavam que ele merecia mais do que os demais, isso é coisa da Argentina, não do Brasil, que como Brasil foi, até hoje, a todas as Copas, ganhando cinco delas.

Nenhum jogador deve a Neymar

A seleção não tem por que fazer o que faz a Argentina, não nesse sentido pelo menos. Nenhum jogador brasileiro deve a Neymar nada além do que já oferece. Assistências. Bom ambiente nas concentrações. Companheirismo. Que bom que os jogadores brasileiros, bem como milhões de apaixonados por futebol em todo o mundo, admirem e valorizem o talento inigualável de Neymar.

Daí a que todo um grupo de jogadores da seleção, talentosos o suficiente para jogarem nos clubes mais importantes do mundo, tenham como missão primordial vencer a Copa porque Neymar merece, e não eles em primeiríssimo lugar, é totalmente sem sentido mesmo para uma admiradora confessa, como eu, do craque que tanto brilhou no Santos e no Barcelona.

Post-mortem de uma eliminação

No post-mortem de uma eliminação, como a dolorosa queda para a Noruega, é comum que o time derrotado automaticamente se converta em um saco de pancadas. Ninguém no time presta. Os jogadores são todos mascarados. Só se importam com dinheiro. Não jogam como os de antigamente. Não têm vontade de ganhar. Perder como perdemos para os noruegueses é evidentemente prova de que o Brasil ficou muito aquém. Não há como brigar com o óbvio. Mas a acusação de que esse grupo de jogadores não tem vontade de ganhar é, no mínimo, um exagero do torcedor ferido porque o hexa ainda não veio.

Já houve, sim, seleção à qual se não faltou vontade, faltou foco. O estrelado grupo de 2006, que tantas alegrias nos deu antes, chegou à Copa na Alemanha como se protagonizasse um reality show involuntário. Cercada por inúmeras distrações, aquela geração vencedora acabou eliminada pela França, carrasca reincidente do Brasil.

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Vontade no lugar errado

Mas na seleção precocemente derrubada no mundial deste ano, um dos problemas não foi falta de vontade, mas a vontade no lugar errado. Ainda na fase de grupos, quando o Brasil enfrentou a Escócia, bastou Neymar entrar em campo para que passasse a receber todas as bolas. Em vez de ampliar a vitória que construiu com facilidade e entrosar mais o grupo que pouco tempo teve sob Carlo Ancelotti, a seleção estacionou nos 3 a 0.

Os jogadores brasileiros têm uma série de motivos para querer vencer uma Copa. E o primeiro deles deveria ser “quero ganhar porque EU mereço”. Também deveriam desejar porque já ganhamos antes. Deveriam alimentar uma rivalidade positiva com os tantos ídolos que já a conquistaram no passado para o nosso País. Por querer figurar ao lado, ou até mesmo superar, os craques brasileiros que vieram antes. Ou porque sabem que são melhores que alguns que já se sagraram campeões mundiais pelo Brasil.

Ganhar por eles e por nós

Deveriam querer ganhar porque nós, brasileiros, somos conhecedores dessa delícia, o que só nos faz desejá-la mais e mais. E porque milhões de pessoas nesse enorme mundo, até mesmo no Líbano e em Bangladesh, torcem por nós como se brasileiros fossem. Tomara que em 2030 os jogadores da seleção possam se permitir ganhar por eles – e por nós. Vocês merecem. A gente também.