Uma nova pesquisa da Ipsos, divulgada com exclusividade ao Estadão, revela que a inteligência artificial (IA) desperta sentimentos ambivalentes entre os brasileiros. De acordo com o Monitor de Inteligência Artificial 2026, 56% dos entrevistados acreditam que a IA oferece mais benefícios do que desvantagens. No entanto, quase metade dos participantes expressa medo de perder o emprego para essa tecnologia.
Impacto percebido no cotidiano
O estudo aponta que os impactos da IA são amplamente reconhecidos pela população brasileira. Com a disseminação de ferramentas de linguagem generativa, como ChatGPT e Gemini, 48% dos brasileiros concordam que produtos e serviços baseados em IA mudaram profundamente suas vidas nos últimos três a cinco anos. Além disso, 59% acreditam que esses impactos continuarão a se intensificar.
Luciana Obniski, líder de curadoria e tendências na Ipsos Brasil, explica que o brasileiro apresenta um nível de otimismo com a IA acima da média global e adota inovações com mais tranquilidade. No entanto, ela destaca um paradoxo: ao mesmo tempo que a tecnologia é usada para aumentar a produtividade no trabalho, existe o temor de ficar desempregado.
Comparação com outros países
O Brasil está significativamente à frente de nações como França (32%), Alemanha (33%) e Estados Unidos (36%) em termos de percepção de impacto da IA. Segundo Obniski, países como os EUA e nações europeias demonstram maior preocupação com segurança da informação e vazamento de dados, além de sofrerem menos com o deslumbramento tecnológico.
Países asiáticos e latinos estão entre os que mais declararam terem sido impactados pela IA nos últimos cinco anos. No topo do ranking está a China, onde 85% dos entrevistados acreditam que a IA impactou profundamente suas vidas, e 88% esperam que esse impacto continue nos próximos anos.
Fatores culturais e econômicos
Obniski atribui essa diferença a aspectos culturais e sociais. Na China, há maior estabilidade no emprego e o medo de desemprego é menos prevalente. Além disso, o país está mais acostumado com tecnologias, adotando ferramentas de IA antes mesmo da popularização das linguagens generativas.
No Brasil, 34% dos entrevistados acreditam que o uso da IA melhorará a economia do país, 30% acham que não haverá mudanças e 24% preveem uma piora. Na China, 77% acreditam em melhora, 14% em estabilidade e apenas 6% em piora.
Mercado de trabalho e produtividade
A adoção da IA no mercado de trabalho tornou-se essencial para otimizar o tempo e realizar diversas atividades. O Monitor de IA 2026 revela que 62% dos trabalhadores em 32 países afirmam que a IA lhes poupou tempo no trabalho nos últimos 12 meses. Entre os brasileiros, 59% dos trabalhadores relatam economia de tempo. Além disso, 60% acreditam que a IA melhorará o tempo de realização de tarefas nos próximos três a cinco anos, e 65% esperam que a tecnologia mude a forma como realizam seu trabalho atual.
Por outro lado, o medo de que a IA torne o emprego pior atinge 29% da população, enquanto 33% veem um impacto negativo no mercado de trabalho como um todo. O receio de desemprego causado pela IA no Brasil é superior à média global de 35%, com 42% dos brasileiros acreditando que é provável que a IA substitua seus empregos nos próximos cinco anos.
Obniski comenta que o medo de perder o emprego faz parte da realidade do brasileiro desde antes da popularização da IA, reflexo de crises econômicas passadas. A dimensão ainda desconhecida da IA intensifica esse sentimento.
Abertura para áreas criativas
O estudo também revela uma surpreendente abertura dos brasileiros para a IA em áreas criativas. Cerca de 55% dos brasileiros se sentem confortáveis com a IA escrevendo roteiros de filmes ou programas de TV, e 63% com a escrita de notícias e artigos. Em contraste, no Canadá, apenas 21% se sentem confortáveis com a produção de cinema usando IA e 28% com a produção de notícias.
No entanto, os brasileiros mostram maior resistência em áreas como política e finanças: apenas 35% se sentem confortáveis com IA criando anúncios políticos e 37% com a IA gerenciando suas finanças pessoais.



