Flávio Bolsonaro endurece discurso e foca na base, dizem analistas
Flávio Bolsonaro endurece discurso e foca na base

Após um início de pré-campanha marcado por sinais de moderação, a candidatura de Flávio Bolsonaro mudou de rumo nas últimas semanas. A convenção do PL que oficializou seu nome contou com a presença do presidente argentino Javier Milei, vídeos gerados por inteligência artificial com o ex-presidente Jair Bolsonaro ganharam destaque e o tom dos discursos contra adversários e contra o sistema eleitoral voltou a endurecer.

Para Jorge Chaloub, professor de Ciência Política da UFRJ, a virada não é casual e reflete uma reordenação de prioridades da campanha. Em participação no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, ele lembrou que Flávio havia tentado se apresentar como uma alternativa distinta do pai: defendeu a própria vacinação contra a Covid-19, adotou entrevistas mais ponderadas e buscou diálogo com setores menos identificados com o bolsonarismo.

Estratégia inicial deixada de lado

“Inicialmente, o Flávio Bolsonaro parecia estar fazendo um movimento de ter a ideia de que o eleitor do Bolsonaro já seria dele e tentar conquistar o eleitor dos centros. Era muito claro”, afirmou Chaloub. Segundo ele, os desgastes acumulados pela candidatura nos últimos meses fizeram a campanha abandonar, ao menos temporariamente, essa estratégia de expansão.

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“Depois das acusações, o Flávio Bolsonaro passou a fazer movimentos que são mais próximos do Jair. Questionar urnas, fazer discursos mais duros contra os adversários. Toda essa convenção foi um teste”, disse o professor.

Proteção da base e medo de concorrentes

Na avaliação de Chaloub, o principal objetivo deixou de ser ampliar o eleitorado para se tornar a proteção do espaço já conquistado dentro da direita. “Ele está com medo de que algum desses candidatos cresça para cima da base bolsonarista”, afirmou.

O cientista político acrescentou que a preocupação envolve a própria sobrevivência da família Bolsonaro como principal liderança do campo conservador. “Existe uma preocupação muito evidente de garantir a liderança da família Bolsonaro no campo da direita. Por vezes, se prefere perder com alguém da família Bolsonaro do que eventualmente ganhar com alguém que retire esse protagonismo no futuro”, avaliou.

Esse reposicionamento, na visão do professor, ajuda a explicar por que a campanha passou a assumir riscos que antes evitava. “O fato de alguém que pretende chegar à Presidência ainda estar testando estratégias na segunda metade de julho é um sinal de fragilidade da campanha”, completou.

Leitura da XP: retorno ao eleitor das origens

O diagnóstico é compartilhado por Paulo Gama, head de Análise Política da XP. Para ele, a aproximação com figuras como Javier Milei e o retorno a um discurso mais próximo do bolsonarismo tradicional fazem sentido dentro dessa lógica de preservação da base.

“Talvez tenha sido essa a ideia de se voltar de novo ao eleitor das origens, das bases, para fixar um pouco a imagem e evitar o risco de que ele pudesse ser atacado ou ameaçado por alguma das outras candidaturas de oposição”, afirmou Gama.

Segundo Gama, a mudança representa uma inversão da estratégia adotada no lançamento da candidatura. “O Flávio, para vencer a eleição, sempre precisou trazer o eleitor de centro, o eleitor que rejeitou o pai dele em 2022. Foi a questão da vacina, foi a busca por uma vice mulher, parecia ser essa a receita para buscar esse eleitor. Agora ele passou por episódios de desgaste e talvez tenha voltado ao eleitor das origens”, disse.

Disputa interna e o papel do Fundo Eleitoral

Para os analistas, a estratégia também busca evitar que outros nomes da direita ocupem espaço durante a campanha. Ainda que Flávio permaneça como principal candidato do campo conservador, a preocupação deixou de ser apenas derrotar Lula e passou a incluir a preservação da liderança política do bolsonarismo. Na leitura de Chaloub, esse movimento ajuda a explicar a radicalização recente.

“Ele está mais preocupado em garantir o que já tem antes de olhar para o eleitorado independente, que seria necessário para vencer uma eleição no segundo turno contra o Lula”, concluiu.

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O cenário ocorre em meio a uma estrutura financeira bilionária. O PL, partido de Flávio Bolsonaro, receberá R$ 881,6 milhões do Fundo Eleitoral em 2026, mas a campanha do candidato lançou uma vaquinha para arrecadar doações de pessoas físicas, segundo informações divulgadas pelo InfoMoney.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e nos principais tocadores de podcast.