Efeito Dunning-Kruger explica certezas sobre guerra no Oriente Médio em universidades brasileiras
Efeito Dunning-Kruger nas universidades brasileiras sobre guerra

Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram um viés cognitivo hoje célebre: pessoas com baixo domínio de um assunto tendem a superestimar a própria competência justamente porque lhes faltam instrumentos para reconhecer o que não sabem. É preciso algum conhecimento para perceber a extensão da própria ignorância.

Esse efeito ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais visível nos câmpus brasileiros: a distância entre a segurança com que estudantes e professores se pronunciam sobre a guerra no Oriente Médio e a base factual, histórica e jurídica dessas posições.

Acampamentos e rompimento de acordos

O modelo importado dos acampamentos de Columbia, replicado em dezenas de universidades ao redor do mundo a partir de abril de 2024, chegou ao Brasil com a mesma gramática: rompimento de convênios com instituições israelenses, moções de entidades docentes, adesão institucional à campanha de boicote, desinvestimento e sanções. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal Fluminense e a Universidade Federal do Ceará romperam acordos acadêmicos com universidades israelenses. O sindicato nacional dos docentes aprovou moções qualificando o conflito como genocídio e cobrou do Itamaraty a ruptura de relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Israel.

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O que chama atenção não é a legitimidade do debate (universidades existem para debater, inclusive os temas mais espinhosos da política internacional), mas o descompasso entre a gravidade do enunciado e a profundidade do lastro que o sustenta. Uma acusação de genocídio é uma categoria jurídica precisa, definida pela Convenção de 1948, que exige a demonstração de intenção específica de destruição de um grupo enquanto tal, e que tribunais internacionais levam anos para examinar com todo o aparato de prova disponível. Transformá-la em bordão de assembleia estudantil ou em moção sindical aprovada em poucas horas é o retrato mais nítido do efeito Dunning-Kruger em ação: quanto menor a familiaridade com o direito internacional humanitário, a história do embate e a complexidade da região, maior a convicção com que se profere o veredito.

A traição dos intelectuais

Julien Benda, em A Traição dos Intelectuais, já alertava para o risco de que os homens de pensamento abandonassem o rigor em favor da paixão política, tornando-se, em suas palavras, clérigos que abdicam da própria função. Quase um século depois, o risco não é mais hipotético: parte da comunidade acadêmica brasileira trocou a pesquisa pela militância panfletária, e o faz com a autoridade simbólica de quem ocupa uma cátedra, emprestando à opinião o verniz da ciência.

Financiamento estrangeiro e transparência

Há um capítulo dessa história que o debate brasileiro ainda não enfrentou com o rigor que merece, e que vale a pena expor com precisão, inclusive nos limites do que hoje se sabe. Nos Estados Unidos, investigações do Departamento de Educação apontaram que instituições de elite receberam bilhões de dólares em doações e contratos de governos e fundações estrangeiras entre 2012 e 2019, incluindo recursos do Catar, da China, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes, parte deles não declarada como exigia a lei. Para alguns pesquisadores e jornalistas, essa dependência financeira ajuda a explicar a postura de reitorias diante dos acampamentos de 2024.

Trata-se de uma hipótese séria sobre o sistema universitário americano, possível justamente porque ali existem regras de transparência que permitiram identificar o problema. No Brasil, não há mecanismo público equivalente que obrigue universidades ou entidades docentes e estudantis a declarar recursos, convênios, patrocínios, passagens ou diárias ligados a governos estrangeiros envolvidos nessa pauta. Isso não prova financiamento externo às manifestações ou às cátedras pró-BDS; até aqui, não há evidência pública dessa alegação. Mas revela uma lacuna: sem transparência, não é possível distinguir convicção genuína de influência comprada.

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Se o padrão revelado nos Estados Unidos ensina algo, é que a pergunta “quem financia?” deveria ser rotina, não exceção, sempre que uma instituição assume posição sobre uma guerra em curso. É uma exigência de honestidade intelectual mínima, a mesma que falta quando se troca o método científico pela certeza de palanque.

O antídoto: estudo e hesitação

Dunning e Kruger encontraram, em seus experimentos originais, uma saída pouco surpreendente: o treinamento técnico reduzia o excesso de confiança dos participantes menos competentes, porque lhes dava, finalmente, os instrumentos para medir a distância entre o que sabiam e o que ainda havia por saber. A cura para a superconfiança não é o silêncio, é o estudo.

Fica, por fim, a advertência: quanto mais estridente a certeza, maior pode ser a distância entre a convicção exibida e os fatos que a sustentam. O verdadeiro conhecedor hesita, pondera, cita fontes e admite limites. Quem proclama verdades absolutas sobre um tema que historiadores e juristas ainda debatem há décadas não demonstra coragem intelectual; oferece uma ilustração ruidosa do efeito Dunning-Kruger.