A tentativa do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de pacificar a crise entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não deve alterar o principal ponto de atrito entre os dois: a articulação política construída pelo partido no Ceará. Aliados do presidenciável afirmam que o senador não pretende rever o acordo costurado no estado para acomodar as preferências de Michelle e avaliam que um eventual entendimento terá de passar por outro caminho.
Recuo seria sinal de fragilidade, dizem aliados
Na avaliação de interlocutores da campanha, recuar agora na composição política que deu origem à crise representaria uma demonstração de fragilidade justamente depois de o conflito ganhar repercussão nacional. Reservadamente, integrantes do entorno de Flávio afirmam que voltar atrás após a divulgação do vídeo da ex-primeira-dama enfraqueceria sua autoridade para conduzir a própria pré-campanha e transmitiria ao partido a imagem de que decisões estratégicas podem ser revistas sob pressão pública.
Reunião entre Valdemar e Michelle é vista como passo necessário
A expectativa da direção do PL está voltada para a reunião desta terça-feira entre Valdemar e Michelle, na sede do partido, em Brasília. O encontro faz parte da ofensiva para tentar encerrar a crise interna da pré-campanha presidencial e é visto por dirigentes como um passo necessário para reconstruir a relação entre madrasta e enteado. Além de Valdemar, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também passou a atuar nos bastidores como uma das principais interlocutoras entre os dois. O objetivo é criar condições para que Michelle e Flávio voltem a conversar reservadamente ainda nesta semana, em um encontro cara a cara que dependerá do aval da própria ex-primeira-dama.
Bolsonaro orienta filho a buscar conciliação
Antes da reunião desta terça-feira, o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro já havia entrado em campo para tentar conter o desgaste. Segundo relatos feitos a aliados, Flávio visitou o pai na sexta-feira e voltou a encontrá-lo no sábado, na casa onde o ex-presidente cumpre prisão domiciliar. Nas conversas, Bolsonaro orientou o filho a buscar uma conciliação com Michelle e a trabalhar para encerrar rapidamente a crise aberta após a divulgação do vídeo da ex-primeira-dama. Apesar do apelo do pai, Flávio relatou a interlocutores que o ambiente na residência não era dos melhores durante o encontro de sábado. Segundo esses aliados, a tensão provocada pelo episódio ainda era perceptível dentro da família, reforçando a necessidade de uma negociação política para evitar novos desgastes.
Participação de Michelle em evento com mulheres é estratégica
A expectativa é que, caso esse diálogo avance, Michelle participe da reunião organizada por Flávio com lideranças femininas conservadoras para discutir propostas voltadas ao eleitorado feminino. A presença da ex-primeira-dama é considerada estratégica pela campanha em um momento em que pesquisas apontam dificuldades do senador justamente entre as mulheres, segmento no qual Michelle mantém forte influência, especialmente entre eleitoras conservadoras e evangélicas.
Crise não será resolvida com simples pedido de desculpas
Apesar da disposição para encerrar o episódio, aliados de Flávio afirmam que ninguém no entorno do senador acredita que a crise será resolvida apenas com um pedido de desculpas ou uma conversa conduzida por Valdemar. A avaliação é que Michelle dificilmente entrará de cabeça na campanha sem algum tipo de entendimento político mais amplo. É justamente nesse ponto que começam as especulações dentro do partido. Embora aliados da ex-primeira-dama afirmem que ela não gravou o vídeo para se cacifar politicamente e sustentem que seu objetivo era parar os ataques que vinha sofrendo nas redes sociais, interlocutores ligados à campanha de Flávio já discutem qual poderá ser a contrapartida para que a crise seja definitivamente superada.
Possíveis contrapartidas e o papel de Michelle no futuro
Esses aliados lembram que a própria Michelle tem dito, em conversas reservadas, que sequer decidiu se disputará uma vaga ao Senado, uma vez que sua prioridade continua sendo cuidar de Jair Bolsonaro. Ainda assim, integrantes da campanha avaliam que um eventual entendimento poderá envolver outros espaços de influência política, como maior participação nas decisões estratégicas da campanha, novas indicações eleitorais ou até mesmo um espaço para a ex-primeira-dama em um eventual governo de Flávio.
Ceará foi o estopim da crise
A crise entre Michelle e Flávio teve início após a ex-primeira-dama defender que a vereadora Priscila Costa (PL-CE), vice-presidente nacional do PL Mulher e uma de suas principais aliadas, fosse contemplada com uma das vagas ao Senado no Ceará. A articulação conduzida pelo diretório estadual do partido, porém, caminhou em outra direção, abrindo espaço para uma composição envolvendo o grupo político do deputado André Fernandes (PL-CE) e setores ligados ao ex-ministro Ciro Gomes (PSDB). Contrariada com a decisão, Michelle publicou um vídeo na semana passada de 26 minutos no qual acusou o enteado de tratá-la com desrespeito e afirmou ter sido alvo de ataques “coordenados” dos enteados nas redes sociais.



